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De heróis a vilões: quando o amor vira sinônimo de medo dentro do próprio lar

O Nova News traz a partir de hoje uma série de entrevistas com mulheres vítimas de violência doméstica e especialistas da rede de proteção existente no município

Tudo começa às mil maravilhas. Só o amor predomina quando um homem com cara de herói entra em suas vidas. O que antes era perfeito, aos poucos vai ganhando outros ares até o ponto de se transformar em um pesadelo.

A série de entrevistas que o Nova News traz a partir de hoje revela o drama de mulheres vítimas de violência em Nova Andradina. Maria, nome fictício, hoje com 36 anos de idade, quer servir de exemplo para outras mulheres que se veem na mesma situação a não ter medo de denunciar e sair do ciclo de violência que estão vivendo.

Detalhando a situação de violência que sofreu, a entrevistada conta que a primeira vez em que foi vítima de uma agressão ela tinha apenas 16 anos. O primeiro marido a atingiu com uma enxadada que quase levou à morte. Foram 17 dias em coma internada em um CTI (Centro de Terapia Intensiva) até se recuperar. Cerca de um ano depois, Maria teve a notícia que o então ex-companheiro assassinou a atual esposa com uma facada no peito.

Os anos passaram e novos relacionamentos surgiram. O último marido chegou em sua vida como um herói que veio para salva-la. Grávida de seis meses de outro homem, ele resolveu assumi-la ao oferecer um amor que a fascinava. Mas, o mundo que era de flores passou a ter espinhos. Maria achava que tudo não passava de um amor doentio que o companheiro demonstrava diante de atitudes de submissão ao longo dos dias. “Eu achava normal às atitudes dele em relação a mim no início. Até o dia que ele passou a me proibir de sair de casa, de pentear os cabelos, cortar as unhas e até de tomar banho”.

Obrigada a se manter sempre neutra, ela conta que o marido estava o tempo todo por perto como se fosse uma sombra a evitando que mantivesse contato com outras pessoas. Ao ‘cair a ficha’ que algo estava errado, Maria disse que decidiu pela separação quando o pior passou a acontecer.

Sem aceitar o fim da relação, ele a procurou tarde da noite para conversar. No calor da discussão, Maria conta que o marido a segurou pelo pescoço até o ponto que ela desmaiou e acordou minutos depois convulsionando. “Nenhum vizinho me ajudou naquela hora difícil. Estava com minha filha de poucos meses sozinha em casa e só pensando no que ele poderia fazer”.

Continuando a contar a sua triste história, a entrevistada disse que ao ver o ex totalmente fora de si, o único jeito naquela hora foi aceitar voltar para casa com ele. “Entrei no carro e vi que o vidro do lado direito não estava fechado. Quando ele passou em frente à casa de um policial que conhecia consegui saltar com minha bebê nos braços. Era uma atitude de puro desespero para pedir ajuda”.

Enfim separados, Maria achava que poderia ter paz na vida mesmo morando de favor na casa da mulher que a abrigou. Pelo contrário, o ex-marido passou a persegui-la até ela decidir mudar de cidade buscando abrigo na casa de parentes. Como meio de fugir, ela conta que precisou acionar o Conselho Tutelar para deixar a filha sob proteção. “Um dos meus maiores pesadelos foi ter que deixar minha filha para trás. Tudo o que eu fiz foi pensando em evitar que ele fizesse um mal também para ela”, desabafa.

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Entrevista drama que viveu ao ser vítima de violência doméstica ainda na adolescência quando levou enxadada e quase morreu - Foto: Luciene Carvalho/Nova News

Já no sexto mês de gravidez, Maria aproveitou um descuido do marido para tentar fugir. Atravessando apenas a rua, ele chegou e uma sucessão de agressões teve início. “Nem gosto de lembrar desse dia. Primeiro ele tentou me arrastar para me fazer entrar. Como não conseguiu devido ao meu peso por conta da gravidez, me agarrei com toda força em uma cerca. Ali fiquei por quase duas horas levando pancadas na cabeça, mordidas e até dedos meus ele quebrou para me tentar me fazer soltar. Só lembro da hora que apaguei quando levei uma pedrada perto do olho e ele me arrastou para dentro de casa. A maior revolta é que várias pessoas viram tudo isso e nada fizeram”, pontua.

Cheia de hematomas, ela relata que o marido tentou se fazer de bom curando as suas feridas. Mas, a sua maior preocupação era com o bebê que passou a não mexer nas horas seguintes. Após muita insistência, Maria o convenceu para que a levasse no Hospital Regional ‘Francisco Dantas Maniçoba’, desde que dissesse que sofrera uma queda de moto para justificar as lesões aparentes que tinha por todo o corpo.

Mas, nada adiantou abrir mão da própria filha. De família bastante tradicional, ela foi convencida e quase forçada a reatar o casamento quando ele foi até Bataguassu a sua procura. De volta à Nova Andradina, mais precisamente no Distrito de Nova Verde, os dias de pesadelo começaram tudo novamente. Logo que chegou, Maria viu o marido reforçando uma cerca para evitar que ela fugisse do local.

“Cada dia que passava, a situação ia ficando ainda pior. Eu era como uma refém vivendo em cárcere privado. Além do mais, não deixava eu sequer ir ao médico para me precaver de ter mais filhos até o dia em que eu engravidei. Ele passou a beber e me obrigava até servi-lo quando ficava até de madrugada com os amigos no bar que tocava, e tudo isso ainda grávida e tendo enjoos constantes, sem falar que até me obrigava a ter relações forçadas mesmo não estando bem”, desabafa Maria.

Eu aprendi a ser mais forte e estou pronta até para morrer se for o caso. Aprendi a ter amor próprio e mesmo, não andando bem vestida, me sinto linda e feliz.

Maria (nome fictício). vítima de violência doméstica

A mentira não foi muito além. Segundo Maria, a atendente logo desconfiou que algo estava errado e ela se sentia acuada com a presença do marido ao seu lado. Ao entrar sozinha na sala da médica, ela pediu ajuda ao contar a verdade e em poucos minutos a polícia chegou para prendê-lo em flagrante dentro do próprio hospital.

Quatro meses durou a prisão do então ex-marido que voltou a procurá-la com a desculpa de ver o filho. “Sem ninguém esperar, ele entrou de uma vez e logo foi pegando o meu filho no colo. Minha avó voltou a falar que eu deveria reatar com ele ao acreditar que casamento tem que ser para a vida inteira e a mulher tem que sempre estar ao lado do marido. Mais uma vez acuada voltei para casa, mas na primeira oportunidade fugi e nunca mais voltei”.

Vivendo a duras penas, Maria mais uma vez teve que deixar o filho de poucos meses de vida em um abrigo por não ter como se manter e com medo do ex usá-lo contra ela. “Quando procurei ajuda, a justiça também me colocou em um abrigo até eu consegui um emprego e me reerguer. Passei a vender balas de porta em porta e até hoje ainda sobrevivo disso. Espero dentro em breve estar em melhores condições e ter os meus filhos de volta”.

O mais importante para Maria a partir de agora é seguir a vida de cabeça erguida sem medo do que está por vir. “Eu aprendi a ser mais forte e estou pronta até para morrer se for o caso. Aprendi a ter amor próprio e mesmo, não andando bem vestida, me sinto linda e feliz. Não acredito mais no amor e quero apenas cuidar de mim para ter os meus filhos de volta. Digo às mulheres que se veem na mesma situação que vivi que denunciem e tenham coragem de sair do ciclo de violência em que estão vivendo. Assim como eu consegui, qualquer uma pode também. Basta querer e até abrir mãos dos filhos como eu abri. Quero que eles me vejam com orgulho pelo sacrifício que fiz para salvá-los acima de tudo”, detalhou Maria.

A próxima entrevista será com a coordenadora do CAM (Centro de Atendimento à Mulher), Lucinéia Rodrigues Medeiros Barbosa. Lá são atendidas um grande número de mulheres vítimas de violência doméstica assim como Maria que concedeu entrevista à reportagem do Nova News. 

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