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Hoje em uma cadeira de rodas após acidente, ‘Kleber Passoka’ conta como encontra forças para não desistir

A história que o Nova News irá contar hoje faz parte de uma série de entrevistas para chamar a atenção sobre a problemática hoje vivenciada no trânsito nova-andradinense

Tudo poderia ser diferente se uma fração de segundos não mudasse o destino de um menino, que ainda no auge dos 9 anos de idade, sonhava em ter a sua própria moto. Aos 18 anos, o sonho foi realizado, mas só aos 33 anos a maior vontade se concretizou quando comprou a tão desejada moto de quatro cilindros.

A história que o Nova News irá contar hoje é de Kleber da Silva Gutendolfer, o “Kleber Passoka” como é conhecido, hoje com 35 anos, em uma série de entrevistas que será produzida neste mês em alusão ao ‘Maio Amarelo’ que trata-se de um movimento para chamar a atenção da sociedade para o alto índice de mortes e feridos no trânsito que acontece em todo o mundo e que em Nova Andradina não é diferente.

Em uma tarde de sábado, mais precisamente no dia 23 de abril de 2016, um mês após comprar a Kawazaki Z 750, Kleber seguia para o Parque de Exposições para assistir o treino de manobras radicais que costumeiramente acontecia no local.

Ao passar na rotatória em frente à entrada do parque, eis o fatídico acidente: Kleber foi atingido por um GM Classic, conduzido por um adolescente de 16 anos, que invadiu a pista e o atingiu. O impacto foi tão violento que ele diz que não se lembrar de quase nada até ser socorrido às pressas para o Hospital Regional .

“Tudo o que sei é que eu não estava em altíssima velocidade como falaram no dia do acidente. Não passava de 80 km/h a velocidade que pilotava a minha moto até ser atingido. Chegaram a dizer que o painel travou em 160 km/h. Esse tipo de painel não trava por ser digital e queimaria com um forte impacto”, conta o motociclista.

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Kleber Passoka ficou paraplégico após acidente que aconteceu há dois anos – Foto: Luciene Carvalho/Nova News

Sempre converso com Deus e fiquei mais próximo a Ele ainda após o acidente

Kleber da Silva Gutendolfer, "Passoka"

Mesmo não se lembrando de nada, o jovem estava consciente e não sabia que o pior ainda estava por vir diante da constatação das graves lesões que sofreu. Apenas quatro horas depois de dar entrada no HR, ele foi transferido às pressas em vaga zero para o Hospital da Vida, em Dourados, com mínimas chances de chegar com vida.

Uma notícia que ninguém gostaria de ouvir, Kleber descobriu que ficou paraplégico após os exames atestarem uma grave lesão medular, além ainda de três lesões torácicas e três vertebras fraturadas.

Como se não bastasse as lesões, o trauma ocasionado pela forte pancada encheu os pulmões do jovem de água e ele precisou ficar internado 17 dias em Dourados para fazer o procedimento de drenagem. “Colocaram em mim um dreno de cada lado por duas semanas. Fiquei bastante debilitado e perdi muito peso. As pessoas até se assustavam quando me viam”, disse.

De volta para a casa, os dias de martírio continuaram. Em cima de uma cama sem poder se mexer da cintura para baixo e com os braços e mãos atrofiados, ele começou uma verdadeira batalha pela vida diante do diagnóstico dos médicos de que a sua situação não poderia ser revertida.

Contrariando 90% do que os médicos falaram de que ele ficaria para o resto da vida em cima de uma cama , o entrevistado disse que não aceitou tal condição e passou a se dedicar às sessões de fisioterapia e os exercícios que também fazia em casa. “Sempre converso com Deus e fiquei mais próximo a Ele ainda após o acidente. O movimento dos meus braços e das minhas mãos voltou e aos poucos fui percebendo que tudo poderia ser diferente”, desabafa Kleber.

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Jovem atribui à família e aos amigos a principal motivação para nunca desistir - Foto: Luciene Carvalho/Nova News

Para Deus nada é impossível e é nisso que sempre me agarro em busca de forças para continuar

Kleber da Silva Gutendolfer, "Passoka"

“Usei fralda até novembro de 2017 e após oito meses de fisioterapia conseguiu sentar sozinho pela primeira vez. O médico quando viu aquilo começou a rir sem parar. Não acreditava que algo, até então impossível, estava acontecendo por eu ter conseguido sentar após tão pouco tempo do acidente e o grau da lesão que sofri. Mas, para Deus nada é impossível e é nisso que sempre me agarro em busca de forças para continuar lutando”.

Casado e pai de um casal de filhos, Kleber atribui à família e aos amigos a principal motivação para nunca desistir. “Minha família e meus amigos me abraçou. Minha esposa Elizete, ao lado da minha filha Giovana, de 9 anos, e meu filho Gabriel, de 8, sempre estão ao meu lado, além da minha mãe que nos trouxe para morar com ela após o acidente já que recebo apenas um benefício de R$ 950 e minha mulher precisou parar de trabalhar para cuidar de mim já que eu não conseguia fazer absolutamente nada sozinho”.

Como uma porta que se abriu, ele relata que setembro do ano passado teve a oportunidade de ficar um mês fazendo um tratamento de reabilitação no Hospital Sara Kubitschek, em Brasília. “Mesmo gratuito, precisaríamos de dinheiro para custear a estadia da minha esposa e a viagem. Foi nessa hora que vi a dedicação dos meus amigos que fizeram promoções de arrecadação para nos ajudar. Chego a me emocionar quando lembro do apoio que recebi. Não há palavras para agradecer tudo o que eles fizeram por mim. Eu não costumo dizer que não tenho simplesmente amigos, tenho irmãos que nunca me abandonaram”, diz o entrevista que teve várias campanhas nas redes sociais #ForcaPassoka após o acidente.

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"Minha esposa Elizete sempre está o meu lado", diz Passoka - Foto: Divulgação

Os 30 dias fora de casa surtiram resultado. O tratamento, que consiste em reabilitar o paciente para ter uma qualidade de vida melhor, levou Kleber a ter oportunidade de começar a fazer quase tudo sozinho sem a ajuda de ninguém. “Quando voltei de Brasília pude levantar da cama sozinho, escovar os dentes, trocar de roupa e até me alimentar. Há 15 dias minha esposa pôde voltar a trabalhar, porque já consigo me virar sozinho dentro de casa. A única coisa que não consigo ainda fazer sozinho é tomar banho. Fiz no ano passado o pedido de uma cadeira de banho para o CER/APAE (Centro Especializado de Reabilitação), em Campo Grande, e até hoje não obtive resposta. Se hoje tenho uma cadeira de rodas mais leve, adaptável à minha condição, é graças ao empenho das pessoas que me ajudaram”.

Um sonho que foi embora

A paixão sobre duas rodas foi um sonho interrompido na vida de Kleber. Quando mais novo, ele chegou a participar de um grupo, o extinto “Ação Total”, que realizava show de manobras radicais. “Desde que eu me entendo por gente, sempre gostei de moto. Meu grande sonho era ter uma moto de quatro cilindros e um mês após comprar, pelo valor de R$ 25 mil, sofri o acidente. A moto quase não estragou. A dor maior é a minha em não mais poder pilotar uma moto”.

Relembrando o dia do acidente, ele diz que se sente indignado com a postura do adolescente e de seus familiares em não lhe dar nenhum tipo de assistência. “Acidentes podem acontecer com qualquer um. Mas, simplesmente um pai, que é responsável pelos atos de um filho menor de idade, te olhar e mandar você se virar é inadmissível. A gente não é nada nessa vida!”, exclama.

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Kleber desabafa que a maior dor é não mais poder pilotar uma moto - Foto: Divulgação

Além de provocar o acidente, Kleber afirma que o adolescente se evadiu do local e voltou depois com o pai quando populares o seguiram. “O que mais me revolta é um fato que me falaram de que ele teria saído de uma festa, em uma chácara próxima dali, e que supostamente estaria embriagado. Se de fato isso é verdade, ele assumiu todo o risco em provocar um acidente”.

Mais uma vítima do trânsito caótico de Nova Andradina, o entrevistado enxerga o problema como uma falta de conscientização dos condutores em não ter uma postura que se espera. “Não precisa ter órgão e leis para coibirem os atos negligentes que se veem diariamente no trânsito. As pessoas têm que agir por elas mesmas. Muitos criticam o fato de eu estar pilotando uma moto de alta cilindrada quando o acidente ocorreu, entretanto, há casos e mais casos em situações totalmente adversas. O ser humano precisa antes se colocar no lugar do outro antes de julgar alguém. Toda vez que você aponta um dedo para alguém, outros têm se voltam para você”, pontua Kleber.

Ao olhar para trás e ver tudo o que aconteceu, ele diz que só tem uma certeza. “Eu não mudaria o que era para acontecer. Dou graças a Deus por estar sozinho. Se eu estivesse com a minha esposa ou algum dos meus filhos e os machucasse, eu nunca me perdoaria”.

De cabeça erguida e com sempre um sorriso no rosto, Kleber, que antes trabalhava como técnico em refrigeração e tinha uma vida ativa, afirma que o mais importante é a graça de estar vivo. “Mesmo paraplégico com sensibilidade alguma da cintura para baixo e a falta de controle de tronco, vou continuar lutando. Para Deus nada é impossível. Já passei por momentos piores e sei que posso ainda vencer muito mais”.

Ao fim da entrevista, Kleber fez questão de agradecer o apoio incondicional que recebe da família e dos amigos desde o dia do acidente. “Agradeço em primeiro lugar a Deus que me deu a chance de estar ao lado de pessoas mais especiais que nunca me abandonaram como, em especial, À minha esposa que é mais que uma companheira. A maior lição que aprendi com tudo isso é agradecer mais e pedir menos. Só o fato de viver é o bem mais precioso que hoje tenho”, disse Passoka.

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