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Mulheres são maioria entre os desempregados em Nova Andradina

De cada 10 pessoas que procuram diariamente o Ciat de Nova Andradina em busca de emprego, 7 são mulheres

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Um dos exemplos é de Angélica Xavier, de 27 anos, que está há quatro meses desempregada - Foto: Luciene Carvalho/Nova News

De cada 10 pessoas que procuram diariamente o Ciat (Centro Integrado de Atendimento ao Trabalhador) de Nova Andradina em busca de emprego, 7 são mulheres. Mesmo em condições iguais na maioria dos casos, a constatação do Nova News mostra um cenário adverso à maior inserção feminina no mercado do trabalho que parece estar longe de chegar à igualdade.

Acompanhando a rotina movimentada da agência às segundas-feiras, a reportagem conheceu ontem (18) algumas mulheres que relataram as dificuldades que encontram para conseguir um emprego. Um dos exemplos é de Angélica Xavier, de 27 anos, que está há quatro meses desempregada.

Acumulando várias funções em seu currículo, a jovem relata que começou a trabalhar aos 10 anos de idade como babá ao cuidar dos irmãos. De lá para cá, Angélica já fez de tudo um pouco na vida e busca qualquer tipo de colocação no mercado devido à necessidade de cuidar da filha de 7 anos.

Mesmo com 7 anos e meio trabalhando com carteira assinada e com os requisitos básicos para ser empregada com facilidade, a entrevista diz travar uma luta diária em meio à dificuldade de conseguir um novo emprego. “Quase que diariamente saio em busca de emprego. Chego a bater de porta em porta no comércio e sempre tenho um recebido um ‘não’ ao voltar para casa sem expectativa se vou conseguir voltar a trabalhar”, desabafa Angélica que tem ensino médio completo e já fez um curso instrucional na área de recursos humanos para aumentar a sua qualificação.

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Coordenadora detalha que candidatas mesmo preenchendo requisitos para contratação não conseguem vaga - Foto: Luciene Carvalho/Nova News

O fato de ser mulher é, para Angélica, um dos entraves que dificulta a sua reinserção no mercado de trabalho. “Pelo que vejo, há ainda muita resistência por parte dos empregadores em contratar mulheres em funções que temos plenas condições de desenvolver. O que as pessoas precisam saber é que as mulheres também são capazes e executam um determinado serviço até melhor do que os próprios homens”, relata.

Um último desabafo da jovem é com relação à cor da pele que, para ela, é também uma barreiras que a impede conseguir emprego com mais facilidade. “A sociedade pode não admitir, mas o racismo ainda existe e notamos isso em algumas situações de como as pessoas nos olham quando chegamos e pedimos uma oportunidade de trabalho”, afirma a mãe de família que é separada e ao estar desempregada sobrevive com a ajuda da mãe e apenas R$ 37 de um benefício que a filha recebe. “Raramente quando aparece, faço diárias para me manter até surgir uma luz ao sol para que possa ser digna de voltar a ter o meu próprio emprego”, expôs a jovem.

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Leonice Rodrigues da Silva, de 49 anos, trava luta diária para conseguir uma vaga - Foto: Luciene Carvalho/Nova News

“Topo qualquer emprego desde que não seja matar ou roubar”

Leonice Rodrigues da Silva, hoje com 49 anos de idade, é um exemplo de mulher guerreira que também começou a trabalhar ainda na infância e dedicou a maior parte da vida a realizar serviços braçais.

Hoje desempregada, ela ajuda o marido que é pedreiro e trabalha como servente até conseguir um novo emprego. “De tudo já fiz na vida. Trabalhei cortando cana, colhendo algodão, cozinhando em uma carvoaria e topo qualquer emprego desde que não seja matar ou roubar. Não tenho preguiça para fazer nada e até quando eu puder vou continuar a minha luta”.

À reportagem, Leonice contou que saiu de casa nessa segunda-feira às 4h da manhã em busca de emprego. “Moro em Batayporã e sai cedo de casa para vim à Nova Andradina porque lá está mais difícil ainda trabalho. Fui primeiro no Frigorífico JBS e andei a pé até o Naturafrig e não consegui nada até voltar aqui no Ciat para ver se apareceu algo. Amanhã se for preciso faço tudo isso de novo”, disse a trabalhadora que está há um ano desempregada e também por ser negra se sente discriminada no mercado de trabalho.

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Com 18 anos, Mariele busca a primeira oportunidade de emprego - Foto: Luciene Carvalho/Nova News

Jovem de 18 anos corre atrás do primeiro emprego

Pela primeira vez, Mariele Borges Gonçalves, de 18 anos, foi ao Ciat em busca do seu primeiro emprego. Com ensino médio completo e formação técnica na área de agropecuária, a jovem hoje trabalha como babá até conseguir uma efetivação no mercado de trabalho.

Com o currículo em mãos, ela relata que já percorreu o comércio sem obter a chance de adquirir experiência em qualquer profissão. “Se ninguém dá a primeira oportunidade, é impossível termos experiência como a maioria das empresas exige”, enfatiza.

Do ponto de vista de Mariele, o grande número de mulheres hoje desempregadas é fruto ainda de uma sociedade machista que não dá condições iguais ao público feminino. “A mulher é plenamente capaz de desenvolver várias funções ocupadas pelos homens. É comum vermos posts priorizando homens para determinadas vagas, e isso não deveria existir se também temos plenas condições de igualdade no mercado de trabalho”, destaca. Recém-casada, ela almeja trabalhar para ajudar o marido e também realizar o sonho de cursar uma faculdade de Direito.

Desempregada há três anos, Emily também diz ser vítima de preconceito

Há três anos sem conseguir uma ocupação no mercado de trabalho, Emily, de 23 anos, também diz ser vítima de preconceito. Desde criança com vitiligo que é uma doença que tem como principal característica a perda da coloração da pele, a jovem relatou que deixou de ser empregada por possuir o problema.

“Quando fui em uma usina em busca de um emprego, o entrevistador me disse que eu não poderia ser contratada porque na função seria necessário que eu ficasse exposta ao sol, prejudicando desta forma a minha doença. Entretanto, isso não é verdade, quando era uma criança até fiz um tratamento que precisava ficar no sol para ter o resultado esperado. Trata-se, do meu ponto de vista, de um preconceito mascarado em uma justificativa sem fundamento”, classifica a jovem.

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Há três desempregada, Emily diz ser vítima de preconceito - Foto: Luciene Carvalho/Nova News

Sem conseguir um emprego fixo, Emily relata que também trabalha como babá e ajuda a sogra que vende roupas como autônoma. “Tento me virar como eu posso até o dia que alguém me dê alguma oportunidade. Trabalhei apenas 9 meses como menor aprendiz em uma cooperativa de crédito e depois mais 9 meses como repositora em uma supermercado. De lá para cá não consegui mais nada”, detalha. “Se as mulheres estão fora do mercado do trabalho, é porque não há infelizmente não ainda direitos iguais para nós. Somos capazes de desempenharmos muitas funções apenas hoje ocupadas pelos homens”, disse a jovem.

Para coordenadora do Ciat, cenário é preocupante em Nova Andradina

Ouvida pela Nova News, a coordenadora do Ciat, Maria Aparecida Valdez, vê com preocupação o alto índice de mulheres desempregadas que diariamente procuram a agência. “Tratam-se de candidatas, na maioria dos casos, gabaritadas e que preenchem todos os requisitos que se esperam em uma contratação, entretanto, como a demanda é grande, o número de vagas é insuficiente para suprir tal deficiência”, enfatiza ao falar que as vagas geralmente são no comércio e em usinas.

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Coordenadora diz que tem buscado alternativas junto às empresas para aumentar contratação das mulheres - Foto: Luciene Carvalho/Nova News

Verificando hoje o cenário do desemprego vivenciado pelas mulheres em Nova Andradina, a coordenadora detalha que o Ciat tem buscado alternativas junto às empresas para permitir a maior inserção do público feminino nas vagas existentes. “Ações permanentes são colocadas em práticas visando dar fim a tal demanda. A ideia é conscientizar o empresariado que as mulheres têm condições igualitárias em várias funções hoje estritamente ocupadas pelos homens”, ressalta.

“Mais oportunidades precisam surgir. O fato de ser mulher, e ter filhos na maioria dos casos, é uma barreira que precisa ser quebrada devido ao maior grau de responsabilidade para levar mais a sério o trabalho do que próprio homem”, avalia a coordenadora.

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