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A triste união do México com Nova Andradina

Em seu livro clássico, 2666, o escritor chileno Roberto Bolaño (1953 – 2003) surpreendeu o seu leitor com o capítulo “A parte dos crimes”, que se inicia com a seguinte frase: “A morta apareceu num terreno baldio na colônia Las Flores.” Nas 260 páginas que compõem esse capítulo, somos apresentados a uma narrativa de inúmeros crimes, ocorridos entre os anos de 1993 a 1997, cujas vítimas são mulheres mexicanas que estavam na fronteira do país asteca com os Estados Unidos. Os crimes são escritos em detalhes que pintam um quadro narrativo de imenso terror. A surpresa veio quando Bolaño, ainda vivo, revelou em uma entrevista que não criou nenhum dos crimes expostos nesse capítulo, e que os retirou dos jornais publicados no México.

Em março de 2013 quando visitei da Cidade do México, fui surpreendido com uma manifestação em repúdio à violência contra a mulher, ou o feminicídio. Na última quinta-feira, dia 14 de abril, estive na manifestação da morte de Andrea Regina Moreira Cavalcante, que também foi um ato em repúdio à violência contra a mulher. A mobilização, os braços levantados, os gritos e o olhar de revolta das mulheres que Nova Andradina, que estavam nesse ato, me fez recordar desse março de 2013, quando presenciei as mesmas demandas por justiça em terras mexicanas. No México os gritos foram por “justicia”, “ni perdón”, “ni olvido”, “¡ni una más!”, etc. Aqui em Nova Andradina, os gritos foram também por “justiça”, “abaixo à violência”, “te cuida, te cuida, seu machista, que Nova Andradina vai ser toda feminista”.

O trágico que de certa forma, em minha memória, uniu essas duas realidades distintas, tanto na temporalidade, quanto geograficamente, é uma brutalidade sem barreiras: o feminicídio, a violência contra as mulheres. Muito já se escreveu sobre essa selvageria de gênero. Homens que se julgam no direito de tratar as mulheres como suas propriedades exercem um poder que vai do simbólico até as agressões físicas. Quem não se lembra dos “inocentes” desenhos animados, que mostram um homem das cavernas puxando uma mulher pelos cabelos? E aquelas piadas “inocentes” sobre a mulher no volante? Esses exemplos parecem ser apenas gracejos, nada violento. Depois, temos as mulheres que são assediadas nas ruas, nos metros, nos pontos de ônibus. Mas, como muitos dizem, “se ela não quer chamar a atenção, porque saiu com essa roupa?”. Todavia, tudo não passa de atos “inocentes”, que devemos ignorar. E por fim, a violência e a morte. Mulheres que são assassinadas e espancadas porque um homem não aceitou o término de um relacionamento. Esposas que são praticamente estupradas e se calam.

A violência contra a mulher é uma triste realidade. Ao mesmo tempo em que estou escrevendo esse texto, neste exato momento, inúmeras Andreas estão sofrendo, como o caso de uma jovem que denunciou, na madrugada desse sábado em Nova Andradina, dia 16 agora, uma intimidação que sofreu por disparos realizados por um ex-namorado. E no México, mais uma mulher está sendo assassinada, simplesmente porque não quis ser mais uma propriedade. Enquanto no México 95% dos casos de feminicídio não são solucionados, em nossa realidade, Mato Grosso do Sul é o 5° estado com o maior índice de violência contra a mulher.

Por isso que o Feminismo, com F maiúsculo, é mais do que necessário! Em uma sociedade em que a mulher é atacada tanto nos programas ditos “humorísticos” da TV aberta, quanto por deputados e políticos, que é assediada no meio da rua ou nos transportes coletivos, que é espancada e morta, ser feminista é ser rebelde, é ser humana, é levantar uma bandeira contra o feminicídio e pela igualdade de gêneros. Que a justiça seja feita e os assassinos de todas essas mulheres, inclusive o de Andrea Regina Moreira Cavalcante, sejam encontrados e paguem pelos seus crimes.

Mudar essa realidade é uma tarefa árdua, mas necessária. Que possamos construir um mundo no qual, as mulheres mexicanas, brasileiras, e de outras nacionalidades sejam comparadas, não pela violência, e sim pelas conquistas em suas respectivas sociedades. Uma realidade em que uma mulher seja a dona de seu corpo sem sofrer represálias, e que a violência descrita por Roberto Bolaño, não passe de uma mera obra de ficção (* Professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS/CPNA).    

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