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Moradores de países com políticos corruptos tendem a mentir mais

Será que o fato de um país possuir governantes corruptos leva os habitantes a serem mais desonestos? Ou serão os cidadãos desonestos que geram corrupção dentro de um governo? Essas perguntas ainda não têm respostas, mas um estudo publicado em março pela revista científica Nature observou que as pessoas que vivem em países com alto índice de corrupção tendem a ser menos honestas do que as que vivem em países com menos corrupção.

De acordo com Jonathan Schulz, economista professor do departamento de psicologia da Universidade de Yale (EUA), parece que as pessoas estão mais propensas a quebrar as regras se aqueles que as rodeiam também fazem isso. O estudo foi feito em parceria com Simon Gachter, da Universidade inglesa Nottingham, e considerou dados de 23 países espalhados pelo mundo, entre eles: Áustria, China, Colômbia, Alemanha, Itália, Marrocos, África do Sul, Espanha, Suíça e Reino Unido. O Brasil não entrou no estudo.

Segundo Schulz, o que motivou a pesquisa foi a necessidade de saber se (e como) o ambiente social poderia impactar a honestidade do indivíduo. "Para isso, usamos um indicador de PVR (Prevalência de Violações às Regras) que pudesse medir o nível de corrupção, evasão fiscal e fraude política em 159 países. Depois, pegamos 23 deles e medimos o grau de honestidade de 2.568 estudantes", disse em entrevista ao UOL.

Grau de honestidade Para medir a honestidade dos participantes, os pesquisadores pediram que eles jogassem duas vezes um dado de seis lados e relatassem apenas o resultado da primeira jogada. Os participantes seriam pagos de acordo com o número informado: quanto maior o valor tirado no dado, mais dinheiro receberiam.

Segundo o pesquisador, eles optaram por não verificar se o número informado pelos estudantes era realmente verdadeiro, pois quiseram criar uma espécie de "incentivo" para a mentira, ou seja, mentir os ajudaria a ganhar mais dinheiro sem que ninguém pudesse descobrir. No entanto, nos países com maiores índices de corrupção, o número de vezes que o resultado reportado foi entre 4 e 6 foi bem maior do que o esperado pela probabilidade do sorteio. Isso indica que, nesses países, as pessoas tiveram uma tendência maior a mentir e relatar um número maior do que o sorteado.

O pesquisador aponta que Zimbábue, Haiti, Myanmar, Azerbaijão, Congo e Angola tiveram uma "prevalência elevada de violações de regras". Para a psicóloga Denise Diniz, coordenadora do setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), os resultados da pesquisa são bem interessantes e podem servir como base significativa para outros levantamentos. No entanto, ela ressalta que é difícil tirar comparar os níveis de desonestidade de diferentes populações, uma vez que cada uma tem um sistema de valor próprio e regras sociais.

"A mentira é subjetiva, multifatorial e quando vista do lado de quem mente, ela tem toda uma base nos valores individuais e sociais que podem até ser usados para tentar justificá-la. Tem gente que mente para se divertir; outros para prejudicar e há ainda os que mentem pensando em proteger", exemplifica Diniz.

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