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Agentes  de  segurança  admitem  que cadeias da região estão falidas 

Nas cadeias de Nova Andradina e Batayporã só fica quem quer dizem policiais

“Com a maior população de presos sob os cuidados de policiais, e sem contar com agentes penitenciários, a região do Vale do Ivinhema enfrenta uma das maiores crises que o sistema prisional já registrou”. A declaração é de policiais que deveriam atuar no atendimento à população, mas que, devido ao acúmulo de funções, foram remanejados para atuar como carcereiros.

Além de exercer atividade que não é de sua competência, os policiais questionam a quantidade de homens disponíveis para cuidar das cadeias. Nova Andradina e Batayporã, por exemplo, contam atualmente com apenas um servidor para vigiar cada unidade prisional sendo que, nas duas cidades, o número de detentos chega a 150 pessoas, dependendo do período. Os delegados até tentam a transferência de alguns criminosos, o que não acontece por falta de vagas em penitenciárias estaduais. 

Cadeia Pública de Nova Andradina sofre há anos com o caos da superlotação (Foto: Arquivo/Nova News)

Com traficantes, sequestradores e outros presos perigosos, os agentes atuam conforme as ordens dadas por dentro das cadeias. "Hoje um preso já chega escolhendo até a cela que ele quer ficar. Enquanto elaboramos o boletim de ocorrência, pessoas ligadas ao criminoso entram em contato com presos que já estão no sistema e articulam o local exato em que ele vai ficar, sempre junto com conhecidos. Dá vergonha admitir isso, mas é a triste realidade da nossa cadeia”, afirma um policial de Nova Andradina.

Segundo ele, os presos que ficam nas cadeias das delegacias sabem que o regime adotado nas penitenciárias é pior ainda. “Eles ficam tranquilos durante certo tempo, porém, acreditamos que essa calmaria não vai muito longe. Uma verdadeira catástrofe pode ocorrer a qualquer momento”. "Temos presos com alto nível de periculosidade sendo tratados como cidadãos que foram detidos por não pagar pensão alimentícia. Eles deveriam estar aqui de forma provisória até sair a transferência, mas esta transferência nunca chega”, reclama o agente.

Exemplo claro da fragilidade do sistema é o caso ocorrido recentemente em Batayporã. Um homem de 29 anos, identificado como Josemar Ferreira da Silva, preso no último dia 10 de março, com 60 quilos e 800 gramas de maconha em frente à Base Operacional da Polícia Militar Rodoviária da MS-134, em Batayporã, desapareceu da Cadeia Pública. O Nova News recebeu a informação de que o sumiço do traficante foi constatado no sábado (15), não havendo precisão sobre o dia e hora da suposta fuga.

Josemar Ferreira da Silva, preso por tráfico na MS-134, desapareceu da cadeia de Batayporã (Foto: Nova News)

No dia da prisão, ainda durante o flagrante na base da PMR, comparsas de Josemar haviam ofertado, aos patrulheiros, via celular, a quantia de R$ 100 mil pela sua liberação. Os militares recusaram a oferta e encaminharam o autor e a droga aos cuidados da Delegacia de Polícia de Batayporã, de onde ele acabou desaparecendo.

O delegado de Regional de Polícia Civil, André Novelli, disse que tem conhecimento da fuga e que as providências para apurar as responsabilidades estão em andamento. "Será instaurado um processo aqui na Delegacia Regional para apurar criminalmente a ação. Simultaneamente, a Corregedoria de Polícia de Mato Grosso do Sul vai apurar as faltas administrativas envolvendo os policiais que mantiveram contato com o detento", comenta Novelli.

O caos do sistema público de reclusão vem sendo denunciado há anos, porém, nenhuma ação que resolva o problema foi tomada até o momento. Na visão dos servidores que atuam na área de segurança pública, a Agência Estadual do Sistema Penitenciário (Agepen) deveria ter assumido a responsabilidade dos presos, bem como criar novas vagas e contratar mais agentes. "Não tem lugar mais para colocar detentos e, apesar disso, a cadeia continua recebendo pessoas. Onde caberiam 24 presos, há 100 deles e o pior, com apenas um agente vigiando", lamenta um policial.

Mesmo com ações contantes, celulares e outros objetos entram no sistema (Foto: Acácio Gomes/Nova News)

Outro fator que incomoda os policiais envolvidos no sistema é a falta de representatividade política em resolver o problema. "A situação dessa cadeia é muito mais crítica do que a sociedade pensa. São nove celas com presos, que são separados para evitar casos de morte entre eles, o que causaria um motim sem controle. Além disso, no dia de visita, eles recebem cerca de 120 familiares, com apenas um agente para cuidar", comenta. "É banho de sol, oração de evangélicos, higienização, almoço, jantar, visita do padre... Tudo isso com apenas um agente para controlar a abertura das celas. Até quando?”, questiona o policial. 

Com criminosos de toda parte do país e de facções diversificadas, além da superlotação, a situação da cadeia local já interfere no atendimento ao público, ou seja, o cidadão de bem, que procura a delegacia durante a madrugada, corre o risco de não ser atendido. Os policiais evitam a elaboração de ocorrências fora do horário de expediente, porque o único funcionário que cuida das celas durante o dia, trabalha só até às 18h. "Que certeza eu tenho de que a pessoa que está na recepção às 02h ou 03h da manhã não é um bandido que veio resgatar outro? Prefiro não abrir a porta", desabafou um policial.

Possibilidade de greve

Representantes do Sindicato dos Policiais Civis de Mato Grosso do Sul (Sinpol-MS), visitaram Nova Andradina para se inteirar das reclamações dos policiais locais. Na manhã desta segunda-feira (24), policiais civis se mobilizam em frente à Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac) do centro de Campo Grande. Eles pediram melhores condições de trabalho e solicitaram que o Governo do Estado amplie o número de vagas para Polícia Civil, solicitação semelhante a dos agentes de Nova Andradina e Batayporã.

Nas cadeias de  Nova Andradina e Batayporã,  só fica  detido  aquele que quer
Policial

“Queremos, no mínimo, que o Governo aumente o número de vagas para amenizar esse caos. Estamos trabalhando de forma escassa. O Governo está abandonando a Polícia Civil. Nesta terça-feira (25) estaremos em Nova Andradina para realizar uma manifestação. Caso o Estado não se pronuncie, poderemos entrar em greve”, afirma Alexandre Barbosa, presidente do Sinpol.

Superlotação

O Sinpol-MS declara que, atualmente, as delegacias abrigam cerca de 900 presos, entre eles, homens, mulheres, adolescentes e até presos que já foram condenados e que, portanto, deveriam estar em presídios. “O correto é que ao chegar à delegacia, o infrator permaneça apenas o tempo necessário para que o policial realize os procedimentos de interrogatório, boletim de ocorrência e dê início à investigação do caso. Na sequência, ele deve ser encaminhado para as unidades penitenciárias, porém, em muitos casos, o preso permanece por dias ou meses, o que é totalmente ilegal”, afirma o vice-presidente da entidade, Roberto Simião.

Nova fuga

Para reforçar o desabafo dos policiais ouvidos pelo Nova News, mais um preso fugiu da Cadeia Pública de Batayporã, no último final de semana. Considerado um ladrão oportunista, com várias passagens por roubo e furto, "Aparecidinho", como é conhecido, serrou a barra de ferro da cela 02 e escapou. Seu desaparecimento foi constatado somente no momento da contagem. "Quem quer sair, sai! Nosso sistema está falido e enquanto a Agepen ignorar o problema e a população acreditar que esta tudo bem, nada vai mudar”, afirma um policial da região. 

Grades não são mais capazes de evitar a falência da Segurança Pública (Foto: Acácio Gomes/Nova News)

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