Publicado em 09/01/2018 às 16:02, Atualizado em 09/01/2018 às 21:30

Mulheres no crime: de um mundo cor de rosa à cela de uma prisão

Matéria especial produzida pelo Nova News mostra o maior envolvimento de mulheres no mundo do crime em Nova Andradina

Luciene Carvalho, Redação Nova News

De um mundo cor de rosa rodeado de bonecas ainda na infância, à cela de uma prisão. O maior envolvimento de mulheres no mundo do crime é o destaque de hoje do Nova News em uma matéria especial que revela o drama de quem escolheu viver à mercê da lei.

Se autodesafiando, elas são audaciosas e se mostram destemidas quando decidem entrar na criminalidade. O escolhido para falar sobre o assunto é o comandante da Força Tática do 8º BMP (Batalhão de Polícia Militar), capitão Nelson Vieira Tolotti, ao detalhar que o tráfico de drogas predomina entre os crimes praticados pelas mulheres em Nova Andradina e também na região.

Segundo os dados a que a reportagem teve acesso com exclusividade, das 76 ocorrências de tráfico de drogas no ano de 2017 da Força Tática, 31% teve o envolvimento de mulheres. Em relação aos crimes de modo geral, 65% estão relacionadas ao tráfico, quase o dobro na comparação aos homens. Na sequência, os principais delitos praticados pelas mulheres são furto e roubo.

Quando o assunto é o tráfico de drogas, as mulheres chegaram a figurar comandando grandes esquemas ou como protagonistas em ações desmanteladas pela polícia, como é o caso, da maior apreensão de droga da Força Tática do ano que chegou a cerca de dois mil quilos de maconha, e que teve a participação de uma mulher que foi presa juntamente com o marido como batedores da carga.

Preferindo não falar, ela é uma das quatro mulheres que foram transferidas na manhã desta terça-feira (09) da cadeia pública de Batayporã para o presídio feminino de Jateí, a cerca de 130 quilômetros do município.

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Dos 76 casos de tráfico de drogas em 2017 da Força Tática, 31% envolveu mulheres - Foto: Luciene Carvalho/Nova News

De ‘casa nova’

Antes de ir para a ‘casa nova’, S.A.D., de 43 anos, decidiu conceder entrevista para a reportagem. Ela se diz inocente da acusação de tráfico de drogas e associação que a levou a ser julgada e condenada há 11 anos de prisão.

Na maioria das vezes nunca confessar o crime praticado, especialmente no tráfico é, segundo o capitão Vieira, um hábito comum entre as envolvidas. “Não sabia de nada até o dia que a polícia chegou em minha casa e prendeu eu e o meu filho”, disse a entrevistada.

Conforme relatado, ela foi presa em fevereiro de 2016 durante uma operação deflagrada em Nova Andradina pela Polícia Civil. Escutas telefônicas desmantelaram o suposto esquema que mãe e filho estariam envolvidos. No dia do flagrante, mandados de prisão foram cumpridos que culminaram com a prisão de outros suspeitos também no município.

Quando o amor fala mais alto

Exceto em raras situações, a maior parte das mulheres envolvidas no crime tem algum vínculo sentimental com homens que estão ou já estiveram presos por algum tipo de acusação, em especial ao tráfico de drogas.

Fora o filho que à época da prisão já tinha completado a maioridade, a entrevistada é mãe de outros dois filhos que também têm envolvimento com o mundo do crime. Dos três, dois estão presos. Na análise da polícia, ela foi cooptada para o crime pelos próprios filhos.

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Quatro mulheres foram transferidas na manhã desta terça-feira para presídio em Jateí - Foto: Luciene Carvalho/Nova News

De diarista a uma das ‘senhoras do tráfico’

Apelidadas como ‘as senhoras do tráfico’ quando caem nas garras da polícia, as figuras femininas do mundo do crime deixam de lado, em grande parte dos casos, de terem uma vida normal para vislumbrar a fantasia do dinheiro fácil.

A detenta, que é a principal personagem desta matéria, contou à reportagem que é a primeira vez que ela foi presa ao longo de sua vida. A mulher identificada como S. disse que trabalhava como diarista e, após passar em um concurso público da Prefeitura de Nova Andradina, estava trabalhando há sete meses uma escola municipal como auxiliar de serviços gerais. “Quando eu voltar para casa, quero começar de onde parei. Trabalhar de forma digna como sempre fiz”, afirmou a então moradora do Bairro Argemiro Ortega.

Sobre a transferência, S. expôs que não sabe o que vai encontrar ao ir para um presídio. “Aqui tudo era tranquilo, mas lá, não sei como será. Não sabemos o que nos espera, mas tomara a Deus que dê tudo certo”. Segundo ela, foi fixado 3 anos e 6 meses de reclusão em regime fechado a ser cumprido. “Já recorri à sentença e espero após esse tempo sair da prisão e terminar de cumprir minha pena em minha casa no regime aberto”, pontuou.

Cooptadas para o crime

Na análise do comandante da Força Tática, a cooptação das mulheres para o crime é um fato preocupante devido ao aumento de prisões que se vê ao longo dos anos.

Um dos casos relembrados pelo capitão Vieira é da jovem B.S., hoje com 23 anos de idade. Dona de uma beleza estonteante, ela foi presa ainda menor de idade com apenas 14 anos e, atualmente, se encontra cumprindo pena no regime semiaberto por tráfico de drogas.

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S.A.D., de 43 anos, foi condenada há 11 anos de prisão pelo crime de tráfico de drogas - Foto: Luciene Carvalho/Nova News

As mulheres se autodestroem quando são seduzidas pelo status de falsa fantasia que o dinheiro fácil traz”

comandante da Força Tática, capitão Nelson Vieira Tolotti

Entre as várias passagens que acumula ainda no auge da mocidade, B. foi presa duas vezes por tráfico de drogas. Como se não bastasse o envolvimento com o crime, ela é mãe de três filhos em que os pais de todos eles se encontram presos. Além do mais, recentemente a jovem se casou um integrante do PCC (Primeiro Comando da Capital).

A história de B. é uma entre tantas outras de garotas de rostos bonitos que foram recrutadas pelas facções criminosas a agirem na contramão da lei. “Vistas como objetos para mascarar esquemas de tráfico por terem boa aparência, infelizmente muitas garotas começam muito cedo no mundo do crime e muitas vezes não conseguem mais sair. Se autodestroem quando são seduzidas pelo status de falsa fantasia que o dinheiro fácil traz”, detalhou o capitão.

Quando vão parar atrás das grades, Vieira detalha que o prejuízo é enorme para a família das detentas. “Boa parte das mulheres presas são mães solteiras. Tratam-se das únicas pessoas que trabalhavam em casa para dar sustento à família e de repente são retiradas o seu lar. Sem falar ainda, dos filhos que quando não tem parentes para cuidá-los, vão parar em orfanatos quando menores de idade”, observou.

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Comandante da Força Tática vê maior participação das mulheres no crime como fator preocupante - Foto: Luciene Carvalho/Nova News

‘Amor bandido’

Uma amostra de um caso apurado pelo Nova News de quando o amor fala mais alto e decide tomar outros rumos é de S.B.S., de 42 anos. Moradora em Batayporã, ela vive um ‘amor bandido’ com o marido que está preso e, segundo o comandante da Força Tática, são cúmplices em um esquema de tráfico de drogas no município.

“É comum ocorrer de o marido ir preso e a mulher continuar na prática do ilícito. Pelo que se vê, muitas são tomadas por sentimentos devastadores e não conseguem mais parar. Há relatos que ela mantém o esquema que antes comandava junto com o marido”, destacou o capitão.

Conforme Vieira lembrou, o casal foi preso no ano passado, juntamente com outros comparsas, apontados em praticar um furto na Delegacia de Polícia Civil de Taquarussu. “Após serem liberados, os dois e mais um dos filhos foram presos por tráfico. Apenas o marido e o filho continuam presos, enquanto ela foi posta em liberdade”, enfatizou o comandante. Segundo ele, dos cinco filhos de S., quatro têm passagem pela polícia. Só ela já foi presa três vezes por tráfico.

Álibis para escapar da prisão

Um dos pontos destacados pelo comandante são os álibis usados pelas mulheres quando flagradas em esquemas de tráfico. “Ou alegam ser mãe, ou usuária para não ficarem presas e se livrarem da acusação. Infelizmente, esses artifícios convencem e muitas voltam para as ruas e continuam no crime”.

Quando o assunto é artifício para escapar de uma ação policial, as mulheres chegam ao ponto de tentar usar a própria beleza para se esquivar de uma abordagem a fim de não levantar suspeita de alguma prática ilícita, em especial ao tráfico de drogas. “Elas são extremamente audaciosas e acreditam que não podem ser submetidas à busca pessoal. Entretanto, tal prática é permitida conforme prevê o artigo 244, do Código de Processo Penal. ‘A busca em mulher será feita por outra mulher se não importar em retardamento ou prejuízo da diligência’. Em outras palavras, isto quer dizer que quando a Polícia Militar se deparar com uma mulher com fortes indícios de traficância e se não houver mulher para a busca, o policial homem tem permissão em lei para fazer, porém, evitamos ao máximo tal tipo de situação para não ocorrer interpretações negativas”, frisou Vieira.

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Presas são apelidadas como ‘as senhoras do tráfico’ quando caem nas garras da polícia - Foto: Luciene Carvalho/Nova News

Do tráfico a crimes violentos

Mudando a postura de gênero, R.D.S., de 29 anos, está entre as mulheres presas no ano passado e tem até envolvimento em crime de roubo. Flagrada com droga, ela conseguiu liberdade no dia seguinte, durante audiência de custódia, alegando apenas ser usuária.

Matéria de destaque do Nova News à época, a jovem foi apontada como uma das co-autoras em um roubo à mão armada praticado em uma lan house em 2016 no centro de Nova Andradina. R. tem duas passagens de tráfico e as informações da polícia é que ela continua praticando o esquema.

Ao fim da entrevista, Vieira classifica como preocupante a participação de mulheres na criminalidade em Nova Andradina. “Pelo que se analisa, o Estado não está com sua atenção ainda voltada para esta problemática. Em nossa região, por exemplo, não há ainda um estabelecimento penal para a reclusão das detentas. Apenas medidas alternativas, que não sejam a prisão, são aplicadas e a reincidência na prática de ilícitos continua. E até triste ver essa situação, são mulheres que se perderam no decorrer da vida, mas, infelizmente cometeram crimes e precisam pagar pelo que fizeram”, salientou o comandante.