Sábado, 14 de Dezembro de 2019
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“A Bíblia e a política”, por Ricardo Oliveira da Silva

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Ricardo Oliveira da Silva - Foto: Michele Campina

Alguns dias atrás a senadora Jeanine Añez se proclamou presidenta interina da Bolívia, após a renúncia de Evo Morales, exibindo uma enorme Bíblia nas mãos e afirmando que Deus havia permitido que a Bíblia voltasse ao Palácio presidencial. Nas eleições presidenciais brasileiras do ano passado o candidato que ganhou o pleito usou como um dos motes de campanha a frase “Deus acima de tudo”. Esses dois fatos são sintomáticos de uma época onde ganha cada vez mais força, no Brasil e em outros países da América Latina, a simbiose entre poder político e religioso por parte de certos grupos sociais.

O vínculo entre religião e política possui uma longa tradição na história do Cristianismo. Esse é um traço que também se verifica na história do Islamismo e do Judaísmo, para ficar em dois exemplos que eu tenho um pouco de conhecimento. Contudo, quero me centrar nesse artigo no cristianismo, pois essa é a religião que hoje está sendo mais instrumentalizada por determinados grupos para fins políticos na sociedade brasileira.

As origens do cristianismo estão relacionadas com as angústias e os anseios da população judaica que vivia sob domínio romano no século I E.C (Era Comum). Os princípios éticos e teológicos que formariam a base dessa religião foram proferidos por Jesus Cristo, que se intitulava o Messias, ou seja, o filho de Deus que traria redenção contra os pecados da humanidade. Nos séculos posteriores a sua morte, ocorrida em 33 E.C, seus seguidores compilaram seus ensinamentos em um conjunto de textos que daria origem a Bíblia.

O cristianismo surgiu como uma corrente no interior da religião judaica e gradativamente se expandiu no interior do Império Romano, separando-se do Judaísmo. Inicialmente, os cristãos foram perseguidos pelas autoridades de Roma que os viam como uma ameaça política por se recusarem a adorar o Imperador e por rejeitarem os Deuses do Império. A simbiose entre política e religião era uma pedra angular na Roma Antiga. Em 313, após longo período de perseguições e mortes, o cristianismo foi legalizado pelo então Imperador Constantino. Mais tarde, no ano de 380, o Imperador Teodósio tornou o cristianismo a religião oficial do Império Romano, assim como proibiu o culto aos antigos Deuses.

A história do cristianismo dos primeiros séculos, de religião perseguida para religião oficial do Estado, esteve relacionada ao interesse dos Imperadores Romanos em ter o apoio de uma religião que ganhava cada vez mais força social como antídoto ao definhamento do próprio Império Romano. Por outro lado, as lideranças cristãs tinham interesse na proximidade com o poder político para impulsionar ainda mais a sua religião, organizada institucionalmente na Igreja Católica. A partir do final do século IV, de religião perseguida o cristianismo se tornou uma religião perseguidora dos indivíduos e grupos que professavam as antigas religiões politeístas. O judaísmo também foi alvo de perseguições.

O fim do Império Romano do Ocidente em 476 não significou o fim da influência política do cristianismo na Europa, mas sua adaptação em uma nova realidade. As lideranças católicas se empenharam na evangelização das populações que migraram para o interior das fronteiras do antigo Império Romano e também em ter influência junto aos líderes políticos dos novos reinos que se formaram na Europa. Ao longo da Idade Média a Igreja Católica teve grande poder social e político entre os povos da Europa, ofuscando até mesmo o poder dos reis. As religiões diferentes ao catolicismo foram perseguidas e até mesmo leituras cristãs alternativas sobre os ensinamentos de Cristo foram condenadas pela Igreja Católica como “heresias”. A instauração do tribunal da Inquisição foi uma triste página da história da Igreja Católica, onde pessoas eram torturadas e mortas com o apoio do braço político secular por serem consideradas uma ameaça ao poder da Igreja Católica.

As Reformas Religiosas no século XVI puseram fim a hegemonia católica na Europa. Entre os séculos XVI e XVII inúmeras guerras ocorreram na região motivados por interesses políticos e religiosos. Com o tempo, os grupos reformistas como luteranos, calvinistas e puritanos procuraram exercer influência e controle político nos países que tinham força social. João Calvino (1509-1564) tornou Genebra em um Estado teocrático no século XVI, não permitindo outros cultos religiosos. A Igreja Católica procurou apoio nos países que ficaram fiéis a ela, como Espanha e Portugal, mantendo o mesmo espírito de combate aos “hereges protestantes” e aos praticantes de religiões diferentes do catolicismo.

O Brasil foi colonizado por Portugal a partir do século XVI. Naquela época o país ibérico vivia sob o regime do Padroado, ou seja, o país era oficialmente católico e o Rei era responsável por preservar e expandir a fé cristã, assim como era responsável por combater os “inimigos” do catolicismo. A colonização do Brasil, além dos interesses econômicos, foi impulsionada pelo desejo em expandir a fé católica com a evangelização das populações indígenas e o batismo dos povos que foram trazidos da África para viverem aqui como escravos. Religiões diferentes do catolicismo não eram permitidas no Brasil. Soma-se a isso o fato de que o catolicismo era a religião da elite colonial e uma das formas usadas para legitimar a escravidão e os massacres contra populações indígenas.

A força do catolicismo no Brasil se manteve após o período colonial, consagrado na Constituição de 1824 como religião oficial do país. O Brasil só deixou de ter uma religião oficial com o advento da República em 1889, que igualmente permitiu o culto público de outros credos religiosos. Entretanto, essa liberdade não era para todos os credos, vide a continuidade das perseguições perpetradas aos cultos de matriz africana. Esses fatos não abalaram substancialmente a influência religiosa e social do cristianismo, que até os dias de hoje continua sendo a religião professada pela maior parte da população brasileira.

Esse breve panorama da história do cristianismo mostra as antigas raízes dos laços entre a religião e a política. A religião pode ser pensada como uma questão teológica, e a partir disso serem discutidos seus aspectos doutrinários, os quais buscam fundamentar uma ética e um modo de vida. Contudo, a religião também é a expressão cultural de uma visão de mundo com representatividade social. E em uma sociedade constituída por grupos distintos, com formas de entender o mundo diferenciadas, a religião pode adquirir poder político para impor os interesses de um determinado grupo sobre o conjunto da sociedade.

A religião não se reduz a uma doutrina teológica. Há um trecho na Bíblia, no evangelho de João, onde Jesus disse “amai uns aos outros”. Nas décadas de 1960 e 1970 a Igreja Católica interpretou esse mandamento com o desenvolvimento de uma práxis religiosa de questionamento das mazelas geradoras da pobreza e miséria social, o que resultou em embates com os governos ditatoriais no Brasil e em outros países da América Latina.

Contudo, no livro de Ezequiel, do Antigo Testamento, se encontra a seguinte afirmação: “Matai sem dó: idosos, rapazes e moças, crianças e mulheres, até aniquilar a todos. Todavia não tocai em ninguém que tenha recebido o sinal da salvação.” Esse trecho pode ser usado para justificar atos de intolerância contra pessoas que são identificadas como não pertencentes a um credo religioso, sendo que muitas vezes isso é apenas uma forma de encobrir outros interesses, como econômicos. E nesse ponto o poder político se torna fundamental.

A pergunta que faço para encerrar esse artigo é: qual o legado que os cristãos querem deixar para a sociedade? Tolerância ou intolerância? Reconhecimento de que a sociedade é plural, com formas distintas de pensar e viver, ou imposição de uma visão de mundo? Acredito que toda forma de pensar que preze pela vida, pelo respeito mútuo e pelo convívio pacífico das diferenças deve ser defendida. Para isso, um dos caminhos políticos é a luta pela preservação de instituições laicas. Tarefa mais do que urgente no Brasil de hoje.

Ricardo Oliveira da Silva

(Docente do Curso de História da UFMS/CPNA)

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