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“A pátria de chuteiras”, por Elizeu Gonçalves Muchon

Elizeu Gonçalves Muchon é professor e jornalista

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Elizeu Gonçalves Muchon - Foto: Divulgação

A paixão pela seleção brasileira de futebol já mobilizou quase a totalidade da população. Milhões de brasileiros se sentiam literalmente representados. Nossa pátria amada estava ali estampada e exposta para o mundo. E o torcedor brasileiro embevecido de uma paixão quase passional, embalados pelo samba: Que bonito é de Luiz Bandeira – Que bonito é/as bandeiras tremulando/A torcida delirando/vendo a rede balançar. Uma relação quase indestrutível, a ponto de os torcedores esquecerem as mazelas do país e canalizar suas energias e emoções no verde e amarelo da seleção, sonhando, evidentemente para que o país do futebol se transformasse no país da inclusão social, da criatividade, das oportunidades, da superação, enfim.

A copa do mundo de futebol foi criada em 1.928 na França por Julls Rimett e sua primeira edição aconteceu no Uruguai em 1.930.

O Brasil é o único país do mundo que disputou todas as copas. Foi a oito finais e venceu cinco vezes.

A maioria dos brasileiros defende a hegemonia no esporte de origem britânica.

A frase: “A Pátria de Chuteiras” criada pelo escritor e jornalista Nelson Rodrigues, é, certamente a frase mais propalada no jornalismo esportivo do Brasil.

No entanto, estamos em ano de copa do mundo. Nossa seleção irá participar mais uma vez. Foi classificada com méritos, mesmo assim, há poucos meses do maior evento futebolístico do planeta terra, pouco se fala da copa. Não se vê entusiasmo. A própria impressa esportiva parece alheia, indiferente, com ceticismo, não obstante aos excelsos feitos da seleção canarinho desde 1.930 até hoje.

Há poucos dias, em uma estada na Capital do Estado, arrisquei falar do assunto com o senhor Olegário, motorista do taxi que me conduzia. Seu Olegário, aparentando mais de 70 anos, porém, de porte físico privilegiado e esbanjando disposição, logo que perguntei da seleção ele começou a cantarolar: A Copa do Mundo é nossa/com brasileiro não há quem possa, tintilando os dedos no volante, com um brilho reluzente no olhar. Entretanto, logo começou a dizer: Sabe meu amigo, já ouviu aquela música sertaneja “quem tem um amor distante, que gostou é que pode ter? Respondi que sim e perguntei o que isso tinha a ver com a seleção. Tudo, meu amigo, tudo. A seleção hoje é um amor distante. É como se um pedaço da Europa representasse o Brasil. Os contratos milionários deram lugar ao comprometimento dos jogadores com o torcedor. A corrupção na CBF, a violência nos estádios, o monopólio nas transmissões dos jogos pela TV. A falta de patrocínio para as emissoras de rádios que tão bem leva a emoção do futebol. Tudo vai contribuindo para nos afastar da seleção. Observei discretamente que um fiapo de lágrima descia no canto do olho do motorista. Ele então confessou que chorou muito de alegria e emoção ao lado do rádio com as vibrantes transmissões do saudoso Fiori Gigliotti, chegou a pronunciar a bordão do narrador, “abrem se as cortinas e começa o espetáculo torcedor brasileiro”.

Ouve então um breve silêncio. Notei claramente seu amor pela seleção e pelo Brasil. Mas seu Olegário é de uma geração muito diferente da juventude atual.

Nossa corrida chegou ao fim. Me despedi com um forte aperto de mão em seu Olegário. Certamente nunca mais vou vê-lo. Constatei, todavia, que o futebol proporcionou aquela amizade efêmera. Nunca mais vou vê-lo, mas lembrarei de seu Olegário no decorrer da copa.

O tempo passou e uma distância longa separa a década de 30 aos dias de hoje. Nos últimos 60 anos o mundo evoluiu mais que todo os tempos da civilização. Uma geração foi dando lugar a outra. A geração atual, embora conectada as redes sociais, também tem sensibilidade e também gosta de futebol. A bola continua sendo a bola. Os campos de futebol agora são arenas, mas a magia é a mesma. Verificando vídeos do passado, posso dizer que seu Olegário, assim como a geração atual, de certa forma são um pouco Garrincha, Pelé, Rivelino, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Taffarel, Neymar ou Gabriel Jesus. É que somos o Brasil, mas não somos mais uma Pátria de Chuteiras”.

Elizeu Gonçalves Muchon – professor e jornalista

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