Buscar

“A qualidade do ensino brasileiro”, por Elizeu Gonçalves Muchon

Elizeu Gonçalves Muchon é professor e jornalista

Cb image default

Elizeu Gonçalves Muchon - Foto: Divulgação

A qualidade do ensino no Brasil é muito ruim. Está entre as piores do mundo. A má notícia é que pode piorar. Ocorre, que com a reforma do Ensino Médio, as Diretrizes Curriculares – normas da educação básica que orienta as escolas – terão que passar por uma revisão. Neste sentido, o Conselho Nacional de educação, aproveitando uma brecha na lei, já debateu as regras e fez uma aprovação “prévia” autorizando que qualquer conteúdo escolar previsto no currículo possa ser dado a distância. Se isso for aprovado em definitivo e chancelado pelo MEC, os alunos poderiam ter dois dias de aulas por semana fora da sala de aula.

É que, com a reforma do ensino médio, ficou estipulado que 60% da carga horária contemple os conteúdos comuns, a partir do que constar na Base Nacional Comum Curricular, sendo que os 40% restante (parte flexível), poderia, ou poderá ser cumprido fora da sala, por exemplo de forma online.

Sou do entendimento de que conteúdo a distância deva servir para complementar e jamais para substituir o professor, ou seja, fica claro que deu-se início a um movimento de desresponsabilização do Estado Brasileiro com a formação de nossos jovens.

Na esteira desse raciocínio, devemos considerar, que se não bastasse a fragilidade de nossa Educação Básica, é triste, porém necessário lembrar que os cursos de formação de professores no Brasil estão no fundo do poço. São cursos online oferecidos sem regras e sem qualidade. Mesmo os cursos presenciais não cumprem a parte de estágio supervisionado. Alguns alunos perambulam pelas escolas pedindo socorro para fazer um estágio, sem que um orientador da instituição formadora dê qualquer amparo.

Não é à toa que menos de 2% dos jovens brasileiros sonham em fazer uma graduação na área do Magistério.

Para comparar, é absolutamente necessário observar o que está acontecendo na Correia do Sul e Finlândia que são exemplos de como se investe na educação. Os coreanos aplicam um sistema baseado na tradicional disciplina, sendo que o pilar que sustenta o bem-sucedido modelo é a rigorosa seleção e formação de professores, com boas condições de trabalhado e um dos melhores salários do país. Por esta razão a disputa por um posto de professor da rede pública é tão grande que apenas 10% dos candidatos conseguem uma vaga para entrar nos cursos de graduação para professor. Os Coreanos investem 7,6% do PIB em educação. Os pais são totalmente envolvidos no sistema de ensino, a tecnologia é muito usada, mas cursos online não existem. Lá o ensino é em tempo integral e ainda tem atividades extraclasse.

No Brasil, o Ministério da Educação, (Conselho Nacional de Educação), órgão normativo do sistema, que quer implantar uma proposta que define limite de carga horária fora da escola, para o ensino médio, é o mesmo que fiscaliza e autoriza a abertura e funcionamento de cursos de graduação, não só na área da educação, que funciona como querem e, por conseguinte colocando profissionais desqualificado no mercado.

Talvez isso explique cerca de 500 mil redações nota zero no ENEN. O Mercado de trabalho cada vez mais exige profissional qualificado, ao mesmo tempo o MEC flexibiliza e esculhamba o sistema de ensino e desvaloriza o professor.

O país necessita de qualidade e não de quantidade. De tal ordem que a reforma do Ensino Médio, prevê a implantação de escolas em tempo integral, a priori, conectando quantidade com qualidade. Neste sentido, o Plano Nacional de Educação estabelece que até 2.024, pelo menos 25% das escolas estejam atuando em tempo integral. Paradoxalmente, no entanto, o CNE quer permitir o cumprimento de parte da carga horária fora da escola. Ou seja, no momento que a reforma prevê aumento de carga horária, sinalizou esperança para melhoria do ensino, mas nas entrelinhas da regulamentação já se cogita flexibilizar o cumprimento da carga horária fora da escola, o que corresponde a nada.

Infelizmente o Brasil está confundindo liberdade e modernidade com esculhambação, inversão de valores e falta de disciplina. Os métodos de ensino impostos pelo MEC, são indefinidos, não tem uma linha, ou seja, começa no tradicional, mas desde 1970, o método construtivista, baseados nas ideias de Jean Piaget, influenciados pela argentina Emilia Ferreira, propôs uma revolução no ensino, que no Brasil não funcionou, talvez porque a aplicação do método necessita que as escolas ajustem a essa realidade, como por exemplo um número mínimo de alunos por sala. Então, o que se vê é uma salada de métodos que vai desde o tradicional, passando pela pedagogia montessoriana, construtivismo, freiriano e outros métodos, formando uma salada sem tempero, sem definição, que esbarra nas más condições de trabalho do professor, culminado no complicado sistema de financiamento da educação (FUNDEB), forçando os governos a lotar as salas de aula, pois o número de alunos define o valor a receber.

Educação de qualidade é a única esperança para que nosso país possa, um dia, ser o país de nossos sonhos, mas tudo indica que isso ainda vai demorar muito.

ELIZEU GONÇALVES MUCHON – PROFESSOR E JORNALISTA

[email protected]

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.