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Artigo: “A criança e a barbárie”, por Tânia Bianca Fagundes do Nascimento

Tânia Bianca Fagundes do Nascimento é graduanda em Psicologia na UFGD

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Tânia Bianca Fagundes do Nascimento é graduanda em Psicologia na UFGD - Foto: Divulgação

O século XX representou no mundo, um cenário histórico de inúmeras transformações não só na globalização, ou na tecnologia ou no mercado financeiro, mas apresentou também um grande retrocesso na humanização e no pensar no outro, levando a sociedade a uma forma de vida menos civilizada. Ao romper-se com o passado alguns elementos que outrora fora essencial para o andar humano se perdem, isto quer dizer que não é só os pensamentos e os valores que se modificam ao longo do tempo, mas as regras de conduta que permeavam o agir e o pensar do homem também se adapta a nova era gerando assim uma sociedade onde tudo é possível de ser feito.

O homem em sua relação com o mundo torna-se cada vez mais individual, indiferente e irresponsável, é possível que dentre estes adjetivos caiba mais um, apático. Desde séculos atrás o homem trabalha constantemente para provar que se é melhor que os primatas e melhor que seu colega de trabalho, quero dizer que vivemos num mundo competitivo, onde o mais esperto alcança altos postos e o lerdo, bem... os lerdos assim como os discursos que vão contra qualquer ideologia tendem a ser excluídos para não gerar dores de cabeça.

A sociedade atual se organiza a partir de uma promessa de civilidade, segurança, conforto, respeito e direitos, porém o que se enxerga na realidade são discursos superficiais e repletos de angústia e frieza, onde uma grande parcela da população se deixa levar pela emoção das mídias agindo desta forma por um impulso coletivo. Em dias atuais muito se fala do futuro da nação, ou seja, quem serão as pessoas que mais a diante estarão ocupando cargos de alta relevância e estarão defendendo os seus iguais? Penso que este futuro sejam as nossas crianças. E onde estão estas crianças? Qual a realidade que estas presenciam?

É em uma realidade hostil, violenta e apática que se criam as crianças, é em uma realidade onde não se sabem lidar com a indiferença que as crianças crescem, nossas crianças são obrigadas a conviver com perdas, com mortes e cachinas de outras crianças, crianças convivem com abordagens agressivas de adultos que deveriam as proteger, crianças são educadas com imagens de guerra.

E embora uma grande parcela de indivíduos no mundo já tenham se conformado com a desigualdade, com a exclusão e a violência, ainda se encontram em discursos oficiais hipócritas e medíocres que dizem que a mudança geraria o caos, como se o caos já não tivesse sido instaurado nesta realidade. As crianças que poderiam mudar a história e regenerar o mundo com bons sonhos e reinventar os direitos e a esperança, aprendem com os adultos o genocídio dos direitos, o medo, insegurança, a agressão e a violência.

Diante de todo o cenário caótico em que estamos inseridos, pergunto-me. Será possível modificar esta realidade? Penso que o maior desafio de hoje é fundar uma educação para todos onde a pauta mais importante seja o reconhecimento do outro, e que este reconhecimento seja feito de forma plena onde seja respeitado sua idade, identidade, raça, etnia, cor, cultura, religião, gênero, e classe social. Mas isto só será possível quando os homens começarem a debater, a combater e a lutar contra a desigualdade e educar contra a barbárie, o que neste sentido significa olhar para o presente de forma crítica e compreender que o futuro pode transformar o que parece irrevogável.

Segundo KRAMER (2007 p.7) “Cada um de nós tem diante de seus olhos imagens de maus-tratos, abusos ou violações de direitos humanos de que as crianças são vítima”. E ainda assim muitos dos que nos cercam não acreditam em tais atrocidades, é difícil aceitar que a barbárie está presente em nossa sociedade e mais difícil ainda é aceitar que se faz necessário se educar contra ela.

Não obstante a sociedade brasileira enxerga a taxa crescente de violências em diversas modalidades dia após dia, seja em explosão nas relações interpessoais seja em graves violações dos direitos humanos e pouco se faz a respeito. Em todo país pessoas convivem com a insegurança e o medo constantemente. De acordo com ZANOLLA (2010 p. 118) “A violência se apresenta como a ignorância humana em todos os sentidos, inclusive por atitudes aparentemente racionais justificadas em nome da razão”. Desta forma todo tido de violência seja verbal, física ou psicológica torna-se barbárie neste contexto.

A sociedade em geral costuma cobrar da escola e da família aquilo que é de responsabilidade de todas as instituições. A formação do indivíduo. Não percebendo que a violência vai além dos muros da escola ou de uma família “desestruturada” o desenvolvimento humano do indivíduo vai além do contato com seus amigos e familiares, isto envolve toda uma sociedade, assim combater a barbárie não depende somente do conteúdo fornecido pela escola ou só pela família, o comportamento violento e a formação do indivíduo são construídos socialmente e como tal devem ser observados.

De acordo com ZANOLLA (2010 p.118 apud Adorno 1995) “É preciso ensinar as crianças a se horrorizarem com a violência, para que esta seja banida de vez da sociedade e da cultura”. Diante de todo os apontamentos a direito do futuro da nação, acredito que deveríamos nos preocupar em propiciar condições onde crianças e jovens possam trabalhar e exercer a humanização, onde possam se apropriar das diversas formas de culturas e onde aprendam a não tolerar a violência.

O que precisamos é de escola e de pessoas que façam diferente, que ensinem diferente. Precisamos de mídias que forneçam modelos verdadeiros de ser, e que não utilizem da dor do outro para conquistar o público. Precisamos combater a ignorância a violência e os seus desdobramentos.

REFERÊNCIAS

DE LA TAILLE, Yves. Moral e ética: dimensões intelectuais e afetivas. Porto Alegre. Artmed Editora, 2007.

DE OLIVEIRA, Ana Maria Soares. Relação homem/natureza no modo de produção capitalista. Revista Pegada, v. 3, 2002.

KRAMER, Sonia. Infância, cultura contemporânea e educação contra a barbárie. Revista Teias, v. 1, n. 2, p. 14 pgs., 2007.

ZANOLLA, Silva; ROSA, Sílvia. Educação e barbárie: aspectos culturais da violência na perspectiva da teoria crítica da sociedade. Sociedade e Cultura, v. 13, n. 1, 2010.

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