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Artigo: “A Pária de Chuteiras”, por Eduardo Martins

Eduardo Martins é professor de história da UFMS no campus de Nova Andradina

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Professor Eduardo Martins - Foto: Divulgação

Recentemente li um belo artigo e achei tão pertinente o título que resolvi colocá-lo nesse meu texto. De ante mão agradeço ao autor pela ideia. A partir daqui passo a desenvolver meu raciocínio. Considero inicialmente que Nelson Rodrigues poderia ter razão, em sua época, em dizer que o Brasil era o país do futebol, ou "A pátria de chuteiras", isso na década de 1970. Há pelo menos duas décadas a seleção brasileira de futebol tem pairado entorno do futebol europeu. Tem sido coadjuvante nas copas, inclusive numa disputada em seu próprio país, sendo que nela mais do que pairar, foi humilhada notória, pública e vexatoriamente numa goleada inapagável de 7x1 para a organizada seleção alemã, que sairia daqui com o título na mão.

A seleção parece se preocupar muito mais com propaganda, vendas de produtos, mercadorias, se valem do mês da copa para captar, toda hora que ligamos um aparelho de tv ou nas redes sociais vemos jogadores, ou técnico da seleção vendendo algum produto. São garotos propaganda, devem passar horas em estúdios de gravação para convencer o consumidor/torcedor a comprar. Usam sua pretensas credibilidades para empurrar a mercadoria.

Enquanto isso no campo o que se vê são párias, atuando como num teatro, numa tv em suas propagandas. A própria CBF uma organização corrupta, em que seus dirigentes ou estão presos ou se encontram impedidos de sair do país enquanto lucram com esse mercado.

O futebol é um negócio muito lucrativo e o mercado sabe bem disso, sabe também que de 4 em 4 anos tem a possibilidade de ganhar muito dinheiro com ele, dinheiro esse que é repartido entre tv, CBF e jogadores, mas isso não é problema, sem puritanismo, sem hipocrisia, alguém vende algo e outro alguém compra algo, afinal essa é a alma do capitalismo. O futebol conhece essa lógica.

Diante dessas breves constatações é bom o torcedor da seleção se contentar com os produtos comprados durante a copa, pois ao que tudo indica a função da seleção é vender coisas. Afinal ninguém quer ver a copa num aparelho de tv pé frio, o mesmo do 7x1 dizia uma das redes vendedoras da copa.

Enquanto isso a danada da bola, não a vendida, que é um produto de altíssima qualidade, há décadas fabricada e distribuída pela toda poderosa Adidas, a bola jogada pela seleção brasileira não tem a mesma qualidade do produto.

Entendendo essa lógica mercadológica em que a seleção se tornou uma pária de chuteiras, que só serve mesmo para vender chuteiras, aliás cada uma mais bonita e bem feita do que a outra vendidas a preços altos. Num excelente mercado de 220 milhões de consumidores. Evidentemente cada jogador e até mesmo o técnico sabe desse potencial consumerista. A Copa é rápida durando um mês é preciso ser rápido nas vendas.

A pária de chuteiras cumpre seu papel de garoto propaganda do mercado, a emissora líder se satisfaz com sua parcela de lucro nas vendas, a CBF tem seu quinhão como dona da seleção... o torcedor se satisfaz na mercadoria comprada. Serve até um algum de figurinhas da panini. A César o que é de César.

Querer mais do que isso já é pedir demais, ou bem se joga bola ou bem se vende produtos, a escolha já foi feita e o futebol brasileiro perdeu.

Compraram uma Telstar 18? Trocaram o aparelho de tv? Compraram alguma camisa amarela? Ao menos completaram o álbum da panini? Afinal de párias já basta a seleção e o futebol jogado o povo se realiza comprando.

Eduardo Martins é professor de história da UFMS no campus de Nova Andradina

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