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Artigo: "Cidade (in)viável", por Eduardo Martins

Eduardo Martins é professor de história da UFMS, campus de Nova Andradina

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Professor Eduardo Martins - Foto: Divulgação

O que é uma cidade? Para os gregos antigos era a pólis, lugar de reunião das pessoas para conviver e debater sobre política, filosofia, arte, literatura, direito, educação física, dentre outras artes e ciências. Aliás, os conceitos de política e cidadania surgem nessa época, aproximadamente no ano 600 antes de Cristo (a.C.) e no espaço atual da Grécia. Nesse tipo de espaço chamado pólis (cidade) homens, mulheres, crianças e escravos tinham seus papéis sociais definidos hierárquica e funcionalmente. Aos homens adultos cabia cuidar da política e principalmente do comércio, dado que as cidades-estados que compunham a magna Grécia servia como entreposto comercial no Mar Mediterrâneo, aos homens também era reservado a arte da filosofia que tinha a ver mais com as reflexões acerca da vida terrena propriamente dita e as coisas atinentes à cidade, assim refletiam sobre os problemas da cidade e sua viabilidade para o bem-estar comum. Às mulheres cabiam os afazeres domésticos, cuidar da horta familiar, dos pequenos animais de subsistência, além de educar as crianças, até uma certa idade, pois as cidades-estados gregas costumavam tirar os neófitos do convívio familiar para dar-lhes um tipo de educação estatal, longe de alguns “vícios” maternos e paternos. As crianças eram incumbidas de estudar, brincar, e fazer pequenos ofícios domésticos e trabalhos manuais nas oficinas dos pais ou parentes. Aos escravos restavam os serviços públicos mais pesados, tais como limpar ruas, desobstruir pontes e rios, abrir estradas, cuidar de tropas, fazer trabalhos manuais e vender nas ruas, educar as crianças, entre outras funções menos dignas de um cidadão grego.

Assim temos visto que a cidade grega tinha uma certa rotina de ocupação para todos os estratos sociais o que mantinha ocupada e em pleno desenvolvimento material e moral. Por exemplo, o Direito grego era aprendido de cor (coração) as primeiras lições das crianças era aprender sobre as leis, direitos e deveres de um cidadão grego, dessa forma o Direito era cantado e todos os indivíduos homens adultos tinham a obrigação de conhecer as leis que regiam aquela sociedade, mesmo porque ainda não existia a figura do advogado, esta surge somente no século XI, cada pessoa era obrigada a se defender das acusações a ela disferida.

Que tipo de cidade temos hoje? Qual a sua viabilidade? Qual indivíduo conhece bem os seus direitos e deveres? Qual criança ocupa função social em uma oficina de aprendiz nos intervalos do seu estudo, lazer e descanso? Onde estão as mulheres, senão fora de casa trabalhando para complementar a baixa renda familiar, e onde estão as crianças? Os neófitos, sobretudo, os da classe baixa e filhos de pais operários se encontram nas ruas, praças, redes sociais, sozinhos em casa, entre tantas alternativas de desocupação ofertadas pela cidade moderna. Quando adolescentes, nas festas, “baladas” na companhia de álcool ou algum tipo de substância lícita ou ilícita como alternativa de lazer. Encontram-se também por quatro horas em algum tipo de educação escolar que muitas vezes não lhes fazem sentido o tipo, a estrutura, a organização e principalmente a objetividade prática da escola em relação à vida, ao mundo do trabalho e das suas ansiedades em se enquadrar profissionalmente.

Dito isso resta saber que tipo de cidade somos capazes de construir conjuntamente. Queremos sobretudo uma cidade de paz, um lugar onde cada um consiga ocupar e preencher seu espaço social e lugar de trabalho manual e intelectual, algum tipo de trabalho que não seja alienante e semi-escravo em que a pessoa não se preenche enquanto ser humano. O que se pode pensar é algum tipo de cidade em que as pessoas em todos os seus estratos sociais, categorias de gêneros, condições emocionais e físicas, mas sobretudo que as crianças tenham algum tipo de sentimento de pertencimento e participação ativa nela.

Resta assim que todos nós que vivemos na cidade e nela construímos nossas vidas, sonhos e subjetividades comecemos a pensar séria e urgentemente em um tipo de postura que seja minimante viável e que as crianças sejam ouvidas, vistas e respeitadas em suas opiniões, visões de mundo, desejos e vontades. É preciso que os mundos adulto e pueril se encontrem urgentemente nessa cidade viável.

Às crianças é preciso que haja lazer social, ócio criativo, brincadeiras, trabalho, esporte, aprendizagem e introdução lenta e gradual no universo adulto, educação escolar desalienante e útil para vida prática, com alteração da estrutura pedagógica e da organização escolar burocrática, “violenta” e enfadonha. No caso da violência escolar para Bourdieu é simbólica, para Foucault é prática.

Somente com esse ideal de cidade é que se pode começar a pensar minimante em uma cidade viável para as crianças. Por fim, prisões, internatos, casas de internações prisionais não é solução para os problemas criados pela cidade inviável, violenta e alienada. A prisão/internação de uma criança escancara todas as falhas da cidade na construção de um universo infantil humanizado. Por outro lado alimenta o sistema prisional que já nasceu enferrujado e foi questionado pelos principais teóricos da criminologia do século XVIII e XIX, Rousseau, Benthan, Beccaria, Locke, Montesquieu.

Por fim, a construção da cidade viável passa evidente e politicamente pelos gestores públicos que ali estão eleitos democraticamente pelo sufrágio universal e bem remunerados com o dinheiro dos impostos recolhidos nesta cidade entre outras verbas estadual e federal. É bem provável acreditar que existe pelo menos algum gestor público seja ele vereador, prefeito, vice-prefeito, secretários em geral, preocupado com as crianças da cidade, ou não. 

Eduardo Martins, professor de história da UFMS, campus de Nova Andradina

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