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Artigo: "Conhecendo a comunidade", por Tânia Bianca Fagundes do Nascimento

Tânia Bianca Fagundes do Nascimento é graduanda em Psicologia na UFGD

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Tânia Bianca Fagundes do Nascimento é graduanda em Psicologia na UFGD - Foto: Divulgação

Resenha Crítica do livro “Comunidade a busca por segurança no mundo atual”.

BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 2003. 141p.

Zygmunt Bauman professor das universidades de Leeds e Varsóvia foi considerado um dos maiores sociólogos da atualidade, tem mais 16 obras publicadas no Brasil e se tornou conhecido por suas analises das ligações entre a modernidade e o holocausto, e o consumismo pós-moderno.

Lançado em 2001 o seu livro, “comunidade a busca por segurança no mundo atual”, o autor coloca o leitor num impasse de que a sociedade em dias atuais está sempre em busca de conforto e abrigo, aconchego e segurança que o atual sistema político e capitalista não fornece, talvez propositalmente pelo fato de ter receio de que trabalhadores e cidadãos reivindiquem de uma maneira geral a ordem das coisas. Bauman usa o termo comunidade para falar do futuro das sociedades.

De acordo com Bauman não ter comunidade significa não ter proteção e ter uma comunidade pode significar a perda de liberdade. O autor no decorrer do livro critica de uma forma corajosa e franca alguns conceitos essenciais da sociedade como a comunidade, liberdade e toma questões ainda mais relevantes como a defesa da igualdade e dos direitos. No livro também está presente questões sobre a desigualdade, identidade e meritocracia.

O autor diz que não se pode ter segurança e liberdade ao mesmo tempo na comunidade, ou temos um ou temos o outro. Ambos não se podem ter. O que se torna ruim para a comunidade. A busca constante pela segurança, abrigo e liberdade se dá pela instabilidade que se tem nos dias de hoje no atual sistema político, onde a meritocracia tem uma forte influência nas decisões tomadas pelas autoridades.

Ingenuamente se tem a esperança de que na comunidade se resolve os problemas de cunho individual onde se encontrará soluções e também compreensão pelas falhas cometidas, pois a comunidade é o local onde as pessoas se importam uma com as outras e as acolhem independentes de seus pecados, mesmo tendo divergências de opiniões e ideias a comunidade é lugar de experiências boas.

Segundo o autor, a comunidade está longe de ser um lugar calmo, pois dentro da comunidade há constantes tensões, Bauman deixa isso claro quando ele discorre sobre o assunto dos guetos, pois dentro destes há muitas tensões e há também muita desigualdade e preconceito, os moradores dos guetos sofrem com a exclusão social devido á dois fortes motivos o primeiro por serem afro-decentes e o segundo pela situação financeira, isto é, por serem negros e pobres. Os moradores dos guetos são as pessoas que os comércios não querem nem ao menos para reserva, pois os guetos servem como um depósito de pessoas que a sociedade rejeita.

Nas primeiras páginas do livro, Bauman nos leva a pensar sobre um conceito de comunidade infelizmente não existente, mas um lugar onde todos gostariam de viver, um lugar onde encontraríamos aconchego e amizades verdadeiras, carinho, proteção e segurança. Um mundo realmente incrível. A noção e concepção de comunidade refletida no livro dependerão das experiências de quem utiliza e de como é construída, isto é, uma comunidade com alta aquisição financeira com certeza será muito distinta de uma comunidade onde as pessoas se sustentam com o mínimo possível. .

Partindo do pressuposto de insegurança que inevitavelmente se sente nos dias de hoje, (com um mundo cheio de incertezas, competitividade, onde cada um vive por sua conta), não se percebe que se perde o direito de liberdade, pois se levantam muros á metros do chão, cercas elétricas em voltas das casas, câmeras de vigilância em lojas, neste processo desenfreado em busca de segurança não se percebe que ao poucos se perde também liberdade de ir e vir. Quem é a ameaça que tanto teme?

De acordo com o autor este medo que se tem de estranhos que possam atormentar estas casas, são nada mais que os medos projetados pela instabilidade que se encontra. Bauman (2003) diz, “Temos razões para ter medo, e então só falta um passo para projetar nosso medo nos estranhos que os provocaram, e para condenar a vida urbana por ser perigosa: perigosa por causa de sua diversidade.” (p.132) Um mundo repleto de diversidade é repleto de desigualdade, pois os estranhos á quem o autor se refere são nada menos que os negros pobres que não tem um lugar que possa chamar de seu na sociedade.

Percebe-se que estes preconceitos se fazem tão introjetados e naturalizados na cultura atual que muitas das vezes o que se cria na sociedade são estereótipos carregados de violência, injustiça e marginalidade. Monteiro (2004) diz que “não é possível desnaturalizar um estereótipo, um lugar comum, uma crença tradicional e firmemente arraigada, uma norma, um hábito, em geral um modo de se comportar cuja presença na vida cotidiana é só explicada porque “assim são as coisas”“. (p.126) Isto é, sem a descaracterização do preconceito e da desigualdade passa-se bem longe de uma sociedade ou uma comunidade aconchegante, e por estes motivos se distanciamos um pouco mais da comunidade dos sonhos.

Em contraposição aos pobres da comunidade, Bauman descreve ainda como vivem os “afortunados” as elites que tanto se distanciam da comunidade, o que ele chama de secessão dos bem-sucedidos. A secessão dos bem-sucedidos é á mais pura forma de abandono de responsabilidades e compromissos com os pobres. Pois os ricos não precisam mesmo da comunidade. Os ricos não conseguem perceber o quanto ganhariam e o que ganhariam em comunidade, Estes são constantemente vigiados para que nenhum intruso os incomode não se importando com os demais.

Infelizmente para uns e felizmente para outros, a sociedade da atualidade é meritocrática, onde a fama e o dinheiro é o que importa e não se importa como chegou nesse resultado, pois o que é verdadeiramente importante é ser famoso e ter status, ou seja, as pessoas são avaliadas pelo o dinheiro que possuem, pelo o que possuem e pelo que compram. É comum observar em momentos atuais, muitas bizarrices por fama e por dinheiro, até mesmo a transgressão que antes era uma prática reprovada pela sociedade hoje se for pelo dinheiro e pela fama quase tudo se permite. Pessoas estão em busca de reconhecimento e muitas das vezes assumem muitas facetas da identidade

De acordo com Bauman (2005) “Na modernidade líquida, há uma infinidade de identidades à escolha, e outras ainda para serem inventadas”. Isto quer dizer que não há nada de errado em assumir diversas identidades, o individuo deve ser respeitado pelo que ele se reconhece e é importante que se compreenda que a identidade deste sujeito pode ser modificada a todo instante. De acordo com Ciampa (1987) identidade é como metamorfose, ou seja, está em constante transformação, sendo o resultado provisório da intersecção entre a história da pessoa, seu contexto histórico e social e seus projetos. A identidade tem caráter dinâmico e seu movimento pressupõe uma personagem.

A identidade exige muita compreensão, pois a mesma pode vir se apresentar de diferentes formas, compreendendo o individuo como um ser social que se comunica e sente as relações do meio que se vive e também de forma individual com afetos, e com suas características pessoais. É possível encontrar algumas classificações de identidade, por exemplo, identidade psicossocial, cultural, comunitária entre outras. Segundo Monteiro (2004) é possível fazer uma separação em 6 dimensões da identidade, as 3 primeiras seriam voltadas para o caráter pessoal e as outras 3 ultimas voltadas para caráter compartilhado, sendo as 3 ultimas de muita relevância neste contexto, pois estas indicam a relação do sujeito com a comunidade, o sujeito como participante ativo da comunidade que usufrui de direitos e também que crie possibilidades e dinâmicas que propiciem um bom convívio social, e o que há de mais interessante é que nesse convívio o individuo possa se sentir seguro e pertencente á esta comunidade.

Uma comunidade se baseia em princípios de acordo e desacordo, e isto garante o ponto de partida chamada de união para o progresso de uma comunidade, mas devido á expansão da globalização em grande escala e a rápida aceitação da mesma, pode-se dizer que a desigualdade, e a segregação vieram juntos ocupando um espaço fervoroso nesses dias.

Campos (1996) diz que “A sociedade assolada pelo processo de globalização, de um lado presencia a queda de todas as fronteiras tradicionais que separavam homens e nações, cujo exemplo mais fantástico é a rede internet de informática que acena com a comunidade virtual. Por outro, assiste atônita à emergência de novas/velhas formas de diferenciação e segregação, o que coloca a alteridade e identidade como figuras proeminentes da vida social digna”. Fica claro que num mundo capitalista onde a indústria cultural tem muitas posses e muitos negócios, não há espaço para realidade dura, obstinada e pobre como é a realidade da comunidade.

Bauman ainda avalia como a globalização deixa marcas nas pessoas, tornando-as cada vez mais solitárias, frias e anônimas.

Nosso futuro pode ser nebuloso e cada vez mais impenetrável, e em tempos de desvalorização de si e de leis qualquer esperança de conforto é bem aceito, e segundo o autor alguém sempre estará ganhando ou perdendo alguma coisa pelas escolhas que se faz, afinal de contas não há como saber se as escolhas que se fazem renderão bons frutos. .

O medo e a angustia são os sentimentos que assolam as pessoas nos dias de hoje em busca pela fama, pela gloria muitos perdem a essência de sua identidade, ansiosos por aconchego e segurança, muitos permanecem sonhando com o paraíso perdido, esperançosos por um mundo de gratificações sem desperdícios e excessos, por um mundo sem desigualdade e muros altos. Onde se possa viver nesta tal comunidade.

Compreende-se então que por mais que as pessoas saibam que não encontraram segurança e liberdade na comunidade em dias atuais, elas não perderam o costume de sonhar com este paraíso perdido. .

O que possivelmente os indivíduos veem na comunidade, segundo Bauman é a certeza de segurança e proteção, coisas que não conseguiram sozinhas e dessa forma a comunidade ética segundo Bauman “seria tecida de compromissos a longo prazo, do tipo compartilhamento fraterno, de direitos inaliáveis e obrigações inabaláveis, com perspectiva de futuro”. (p.68). Se faz importante nessa era tentar rearticular as inter-relações entre os indivíduos e a sociedade, entre a comunidade e os condomínios e as relações entre o que é privado e o que é publico, buscando uma promoção e restauração da vida política, econômica e social.

Referências:

DA COSTA CIAMPA, Antônio. Identidade humana como metamorfose: a questão da família e do trabalho e a crise de sentido no mundo moderno. PUC- São Paulo: Interações, 1998. 15 p. v. III.

BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 2003. 141p.

CAMPOS, R. H. F. Psicologia Social Comunitária. Da solidariedade à autonomia. Vozes: Petrópolis, 1996.

MONTERO, M. Introducción a La Psicologia Comunitária. Desarrollo, conceptos y procesos. Paidós: Buenos Aires, 2004.

BAUMAN, Zygmunt. Identidade: Entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Jorge ZAHAR Editor Rio de Janeiro, 2005. 14 p. 

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