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Artigo: “De 1984 ao Facebook”, por Eduardo Martins

Eduardo Martins é professor de história da UFMS no campus de Nova Andradina

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Professor Eduardo Martins - Foto: Divulgação

Depois de muitos anos voltei a reler o livro “1984” do escritor inglês George Orwell. Minha leitura foi realizada quando jovem e agora passados muitos anos e um bom acúmulo de conhecimentos históricos e aprendizados políticos e sobretudo à luz de uma nova realidade de sociedade vigilante e panóptica de poder que visa a “segurança” das pessoas em sociedade volto a reler esse a obra com mais perspicácia e sutilidade. Diante dessa constatação entendo a arquitetura privada e principalmente a pública como um fenômeno de constante olhos bem abertos sobre nós, leia-se cada um vigiando o outro e se quiser ir mais longe dando palpites, opinando, redefinindo, problematizando as ações, comportamentos e subjetividades alheias.

Winston, herói do “1984”, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão (Big Brother), (qualquer semelhança com um certo programinha não é mera coincidência). Algumas ideias centrais do livro como a Novafala e a Crimideia impostas pelo Partido para cercear os indivíduos nesse tipo de realidade. O livro aborda um tipo de sociedade em constante guerra contra todos os países do mundo e monitorado por Teletelas que servem para transmitir mensagens oficiais e programas rotineiros, mas sobretudo para vigiar os indivíduos, a Teletela vê e ouve as pessoas vinte e quatro horas por dia. Nessa sociedade a burocracia tomava conta dela plenamente.

O livro foi escrito em 1948, mas Orwell decidiu colocar um título futurista, “1984”, como se a sociedade do “futuro” trinta e seis anos após a publicação fosse dessa maneira.

Orwell acertou em seu prognóstico acerca de um tipo de sociedade controlada, vigiada e de micro poderes relacionais. Sem, contudo, dizer essas palavras pós-modernas. Fazendo um breve paralelo com o nosso tipo de organização social democrática com ou sem aspas, e capitalista, pretensamente um lugar de liberdades de todos os tipos, inclusive garantidas por leis, pode-se considerar uma comparação entre o “1984” orweliano e o nosso facebook, dois tipos de sociedade/comunidade vigiadas e doutrinadoras de comportamentos. Tendo suas aproximações e distanciamentos, comparações e diferenças, no entanto cabe a reflexão sobre um certo tipo de vida regulado por aparelhos estatais e não estatais, democráticos ou não democráticos, porém, de vigilância e (re) defição de comportamentos.

Seja o facebook hoje, seja o Big Brother de 1948, apesentam dois tipos de controle dos indivíduos que buscam cercear vidas e poder impor comportamentos em toda a população com base na ideia de que estamos sendo observados. Procura generalizar um comportamento típico dentro de um intervalo considerado normal, punição de desvios ou premiando-se bom comportamento.

Diferentemente do Big Brother (O Grande Irmão) de 1948 o fato de que atualmente a vigilância é invisível, isto é, dizer que as pessoas observadas não podem determinar se elas estão sendo observadas ou não, torna o comportamento individual controlado, mesmo quando não é monitorado. O assunto em possível observação tentará obedecer às normas impostas para não ser sancionado. Quais normas são essas em se tratando apenas do facebook? Gostos, comportamentos, compras e finalmente o voto.

O fato de ser monitorado implica, dependendo do caso, a expectativa de um possível reforço ou punição se realizarmos certos atitudes. Isso fará com que as respostas sejam realizadas e que a busca realizada pelo indivíduo provoque consequências positivas ou evite a imposição de uma punição, evitando qualquer comportamento que implique consequências aversivas. A docilidade e a utilidade são comportamentos admitidos para esse padrão de sociedade vigilante.

Edward Snowden, o antigo analista da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos que tornou públicos detalhes sobre os sistemas de vigilância do governo norte-americano sobre os cidadãos, criticou o Facebook na sequência das notícias recentemente publicadas sobre como a rede social permitiu que a empresa de análise de dados Cambridge Analytica recolhesse dados pessoais de 50 milhões de utilizadores para ajudar a campanha eleitoral de Donald Trump. Os negócios que fazem dinheiro com a recolha e venda de registos detalhados de vidas privadas foram, em tempos, descritos claramente como “empresas de vigilância”, disse Edward Snowden no Twitter.

“O Facebook obtém as suas receitas ao explorar e vender detalhes íntimos sobre a vida privada de milhões, muito além dos escassos detalhes que voluntariamente publicamos. Eles não são vítimas. São cúmplices”, escreveu Edward Snowden no Twitter, no sábado. O rebranding deles enquanto ‘rede social’ é a fraude mais bem sucedida desde que o Departamento da Guerra passou a Departamento de Defesa”.

Aproveitamos o Facebook para recolher milhões de perfis e construímos modelos de análise para — através do que ficamos a saber sobre estas pessoas — direcionarmos conteúdos pensados nos seus maiores medos”, assumiu Wylie.

Como bem explorou a série Black Mirror, que atualmente está na sua terceira temporada e retrata e satiriza, de forma sombria, a sociedade contemporânea e as possíveis consequências de sua relação com a tecnologia. Apenas para citar uma, mas existem outras séries desenvolvendo a mesma temática.

Afinal quantas pessoas não vivem suas vidas em função de likes? 2 Bilhões ao redor mundo, o problema é o preço que se tem que pagar por esse despretensioso sinal de joia.

Por fim, reler uma obra como “1984” trouxe elementos para refletir sobre dada sociedade de vigilância, naquele caso descrito por Orwell um tipo de controle que era mais físico, do corpo. O sistema que temos visto/sentido atualmente é no nível dos desejos, age no comportamento e no psicológico das pessoas. De qualquer maneira vale a pena questionar se o passado não vive no presente com novas roupagens. Novas tecnologias travestidas de discurso de democracia. 

Eduardo Martins, professor de história da UFMS, campus de Nova Andradina

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