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“As variações táticas do futebol brasileiro”, por Elizeu Gonçalves Muchon

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Elizeu Gonçalves Muchon - Foto: Divulgação

Guardiola e Mourinho transformaram o futebol na Europa. As variações táticas e a infindável gama de estratégias de ambos, são provas da importância do técnico no “futebol moderno”.

Mas o Brasil, país do futebol, não é o país dos treinadores?

A depender dos analistas de futebol a resposta é não.

Em parte, eles têm razão. O Brasil aprimorou muito a condição física, mas esqueceu da tática. A condição física passou a ser mais importante no jogo de hoje, que ficou mais truncado, mais burocrático, mais pragmático, às vezes sem talento.

Os centros de formação de jogadores demonstram a presença diminuta de Professores de Educação Física com formação qualificada, com mestrados doutorados e cursos de atualização constantes e deu lugar, via de regra, a ex-jogadores de futebol como formadores de novos jogadores. Esses, mandam a campo jovens para praticar aquilo que eles viveram e praticaram em tempos diferente e que nem sempre atende as exigências da atualidade.

No entanto, os poucos centros de formação que ainda se preocupam com os aspectos táticos de jogo, acabam fazendo no sentido de preparar o jogador para ser vendido. Não há um alinhamento tático entre as escolas de formação com o mesmo da equipe principal. Ou seja, o Técnico do time principal desempenha uma filosofia de trabalho e as categorias de base outra completamente diferente.

Tem ainda o fator econômico que dificulta a manutenção de nossos jogadores no Brasil. A média anual, segundo dados da CBF é de 1.000 jogadores por ano que são vendidos para o exterior.

As questões táticas dependem do talento dos jogadores, para que o técnico possa colocar em pratica as variações, como observamos, por exemplo no basquete. Um exemplo recente envolvendo o futebol brasileiro, ocorreu na última copa do mundo. O Tite armou todo o esquema tático a partir da saída de bola com os laterais Marcelo e Daniel. Porém, dias antes da copa, o Daniel se contundiu e a falta de outro jogador com o mesmo talento para entrar em campo comprometeu todo o sistema 4-1-4-1 preparado para o mundial.

Recorreu-se ao plano “B”. Claro que não funcional. E não funcionou por duas razões. A primeira, foi a ausência de outro jogador com talento para substituir Daniel. A segunda foi a falta de uma variação tática capaz de romper o sistema defensivo dos adversários para obter os resultados positivos. Todo sistema ofensivo, depende de um bom sistema defensivo e o meio de campo eficiente para ligar a linha de defesa com a linha de ataque.

De toda forma, a questão é a seguinte: por que Guardiola e Mourinho, dentre outros, conseguiram revolucionar o esquema tático? Talvez porque eles trabalham em clubes que podem contratar os melhores jogadores espalhado pelo mundo. Esse, evidentemente é um fator importante e verdadeiro, mas não é só isso. Tem realmente o dedo talentoso do treinador para conseguir implantar uma disciplina tática, uma consciência coletiva de que um jogador depende do outro para fazer as peças se encaixarem.

Aqui no Brasil, uma série de fatores, alguns dos quais já citados, impedem esse mesmo sucesso. Falta treinadores com talento, mas o calendário do futebol, as dimensões geográficas do país, a filosofia de trabalho nas categorias de base, a falta de mais competições para garotada e a própria legislação que normatiza a carreira dos jovens, são entraves para que o sistema tático de nosso futebol possa aproveitar o talento e a criatividade de nossos jogadores.

Aí começa um papo reto de estrangeirismo. Eu, por exemplo sou contra esse estrangeirismo seja nos diferentes setores. Por exemplo, comparando o meio ambiente com o futebol. Sobre meio ambiente, os Estados Unidos dizem assim: Fazenda aqui e florestas lá. Essa é a concepção deles. No esporte, especificamente no futebol, não é diferente. Os Europeus pensam e tratam o Brasil como a eterna terra do fim do mundo, compram nossos talentos porque sabem que temos 5 títulos mundiais e é preciso minar nosso futebol, nossa economia, nosso meio ambiente e chafurdar nossas glórias.

Por derradeiro, penso que temos plenas condições de ter mais treinadores com potencial para desenvolver um esquema tático que se encaixe no talento individual de nossos jogadores. Ou fazemos isso, ou vamos ser coadjuvantes.

Elizeu Gonçalves Muchon – Professor e Jornalista

elizeumuchon@hotmail.com

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