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“Coligação é o preâmbulo da coalizão”, por Elizeu Gonçalves Muchon

Elizeu Gonçalves Muchon é professor e jornalista

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Elizeu Gonçalves Muchon - Foto: Divulgação

Se você quer saber qual será a base de governabilidade de um candidato a presidente, com hipotético triunfo nas urnas, basta olhar a coligação que está construindo.

Quem faz pacto com o diabo, cedo ou tarde terá que cumprir. É mais ou menos isso que acontece.

Olha que estamos falando de uma República Fake News, onde os três poderes farreiam com dinheiro público e o MP funciona a meia boca. Uma Forças Armadas caindo aos pedaços que perderia uma guerra de estilingue, apequenada a combater traficantes no Rio de Janeiro, passando vergonha todos os dias. Uma economia em depressão há anos. República de altas taxas tributárias, infraestrutura em frangalhos e toda sorte de esculhambação na legislação vigente, com insegurança jurídica, burocracia implacável que destrói qualquer expectativa de produção, corrupção sistêmica, etc...

É nesse cenário que as peças do tabuleiro se movem na formação de chapas, via coligações tostas, fisiológicas e com o lema: quem oferece mais? – dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três.

Até poucos dias atrás, cada pré-candidato se postava de oráculo da verdade. Seus adversários eram demônios de olhos vermelhos e chifres pontiagudos. De repente, alguns segundos no rádio e TV como espólio, o adversário se transforma em pessoa honrada e de caráter ilibado. As convicções ideológicas inegociáveis acabam virando pó em troca de tempo na mídia para propaganda, enquanto do outro lado, Ministérios e Secretarias são negociadas em casso de vitória nas urnas.

Nada de programa de governo. No máximo os candidatos esboçam uma relação de boas intenções.

Coisas estranhas são o que se vê. Lula, por exemplo, demonstra irritação com as pressões e apelos para que indique logo um candidato a presidente, desistindo de concorrer. Pedem para que Fernando Haddad seja o candidato, mas Lula insiste em concorrer mesmo atrás do gradil, demonstrando que o PT está mais para uma empresa com um único dono, que um partido político. Ele sabe que será barrado pela lei da ficha limpa, mas vai empurrar com a barriga até 17 de setembro. Faltando vinte dias para as eleições, anunciará Haddad, com o lema: Fernando é Lula. No fundo, depois da decepção com Dilma, Lula prefere perder as eleições e ter o controle do PT, do que ter um “companheiro” com a faixa presidencial fazendo besteiras.

Alckmin abre mão de convicções para atrair o “Centrão”. Meireles tenta convencer os 594 convencionais do MDB para homologar sua candidatura. Bolsonaro continua com sua metralhadora verbalizando sabiamente aquilo que o povo quer ouvir, sem se amarrar a coligação alguma, não por opção, mas por falta dela. Marina, bom... Marina é Marina. Álvaro Dias tenta reunir condições para ampliar seus 4% nas pesquisas. O Ciro flertou o Centrão e o PT; é como alguém que aceitaria o apoio do delegado ou do bandido que está na antessala, o que vier para ele é lucro. Por fim, tem os demais candidatos que dificilmente passarão a barreira do 1%.

Mas, como ficam as coligações? Aí é que mora o problema, pois essas coligações supracitadas, permitidas por nossa legislação eleitoral, nada mais são que o início da formação de um futuro governo, até porque alguém vai ser eleito, e terá que governar com os que o elegeu.

Pode parecer que estou dizendo que ninguém presta. Ao contrário. Cada um dos candidatos tem suas virtudes e seus defeitos. Cabe ao eleitor escolher o menos ruim, conforme suas convicções. O imbróglio maior está na formação das chapas que, por conseguinte fará parte da equipe que irá governar. Para se ter uma ideia, Alckmin coligou com o Centrão, (DEM, PP, PR, Solidariedade e PRB), terá 60% do tempo de rádio e TV. Não é pouca coisa. No entanto terá que governar com esse pessoal, se eleito.

Outro abacaxi cascorento é o Congresso Nacional. Jânio Quadros renunciou por falta de apoio do Congresso. Color e Dilma receberam cartão vermelho. Lula criou o mensalão para nutrir a fome insaciável dos parlamentares em troca de conseguir governar. Temer é refém dos reféns.

Só há uma saída: escolher bem os parlamentares e garantir apoio popular ao Presidente. Quando a voz rouca das ruas ecoa a conversa é outra.

Nada disso estaria acontecendo se uma reforma política/eleitoral profunda tivesse sido aprovada. No cenário atual, é bom lembrar aos presidenciáveis que precisa combinar com o Congresso, ou nada será aprovado.

Elizeu Gonçalves Muchon – Professor e Jornalista

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