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“Discurso para governar”, por Elizeu Gonçalves Muchon

Elizeu Gonçalves Muchon é professor e jornalista

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Elizeu Gonçalves Muchon - Foto: Divulgação

Tancredo Neves – o presidente que não assumiu – costumava dizer que existe um discurso para ganhar as eleições e existe um discurso para governar.

O Brasil tem um novo presidente: Jair Bolsonaro. A eloquência do discurso para vencer as eleições, deve dar lugar ao discurso para governar. Todavia, essa transição não deverá ser muito fácil.

Antes de qualquer análise sobre o futuro governo, é necessária uma breve reminiscência. Retroceder ao período eleitoral. Há dois anos, se alguém dissesse que o próximo presidente da República “seria” Bolsonaro, talvez fosse levado a um hospital psiquiátrico.

Mas Bolsonaro, (que de bobo não tem nada), incorporou o discurso para vencer as eleições. Diante de um PT chafurdado em corrupção. Um país nostálgico, povo cabisbaixo, violência incontrolável, inversões de valores e uma infinita lista de problemas sociais, mas, sobretudo, diante da ausência de um líder de oposição capaz de ocupar esse espaço, o capitão aproveitou o ensejo, agarrou a oportunidade e sua proposta deu liga.

Até então, à revelia da lei eleitoral, Lula corria o Brasil fazendo comícios. Ganhava pontos nas pesquisas. Já Bolsonaro usava a tribuna da Câmara dos Deputados e programas de rádio e TV, para os quais era convidado e concretizou a ideia de que ele era o contraponto para enfrentar o PT. Os especialistas, todavia, batiam o pé, diziam que Bolsonaro não ultrapassava a barreira dos 8%. E depois chegou 10% e venceu as eleições com 55,13% dos votos válidos. Essa campanha eleitoral tirou muitos demônios do armário. Promoveu surpresas, deixou os analistas chupando o dedo e o Capitão virou Presidente.

Mas, quem é Bolsonaro? Me parece não ser o fascista que a esquerda ama odiar, nem o liberal que a direita ilustrada adoraria amar.

É um inexperiente com o Executivo. Vai sofrer a resistência do Legislativo. Vai enfrentar as tempestades inóspitas da economia globalizada. O entrave da economia doméstica com uma estatística refratária de milhões de desempregados. Vai ter que superar a oposição sedenta, dentro e fora do congresso.

O tom do discurso do presidente deverá deixar a conotação de campanha e assumir efetivamente o discurso para governar. Terá que controlar o ego de seus Ministros. Terá que enfrentar reformas impopulares. Os programas sociais, a insegurança pública, difíceis missões.

As estratégias para conquistar o poder, passam, automaticamente a serem obstáculos ao se exercer esse poder. Além do que, sempre ele terá defensores ferrenhos, mas terá detratores açodados, com estratégias e posicionamentos legítimos da democracia, pois não há governo que preste sem uma oposição de qualidade, o problema é se a oposição resolver cruzar as fronteiras do razoável.

Eu refuto a ideia de uma oposição radical, extrema, intolerante. Mas também refuto a ideia da falta de uma oposição que possa, dentro dos limites constitucionais e democráticas, estabelecer o contraditório.

Bolsonaro vai ter de domesticar o populismo reacionário. Respeitar as instituições, a independência dos poderes, a liberdade de expressão. Haverá de despir as euforias da campanha e incorporar as responsabilidades de chefe de estado e de governo de um país, gigante pela própria natureza, rico e pobre ao mesmo tempo, com o agravante da corrupção endêmico que contaminou boa parte da engrenagem política, empresarial e social.

Como todos os brasileiros, vou aguardar o comportamento do novo presidente e do novo Congresso Nacional. Com um pé atrás ou não, como um otimista contumaz, só resta saldar a democracia e esperar que tenhamos um país melhor o mais rápido possível.

Elizeu Gonçalves Muchon – Professor e Jornalista.

elizeumuchon@hotmail.com

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