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“Estratégias e mistérios,” por Elizeu Gonçalves Muchon

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Elizeu Gonçalves Muchon - Foto: Divulgação

O mais inusitado e surpreendente gesto já cometido por um Presidente da República no Brasil, com certeza foi a renúncia de Jânio Quadros. Até hoje, são inúmeros os comentários, as teses e ilações sobre o fato. Permeia um mistério profundo sobre a renúncia. Tanto que, somente em seu leito de morte, Jânio teria confessado a seu neto, Jânio Quadros Neto. O Neto do ex-Presidente, publicou um livro sobre o avô, no qual afirmou que ele confessou que renunciou simplesmente porque tinha a absoluta certeza de que o povo, os militares e os Governadores o levaria de volta ao poder. Não levaram.

Ao não receber o beneplácito do povo, Jânio entendeu que sua estratégia para conseguir a governabilidade não deu certo e o Congresso venceu a queda de braços, tanto que até mudaram a constituição e implantaram o Parlamentarismo por um breve período.

Cinquenta e oito anos se passaram e hoje, Jair Bolsonaro tenta emplacar estratégias, (guardada as proporções), de enfrentamento com o Legislativo e até com STF, que podem ser um fiasco total. Digo pode, porque o esperado apoio da população, não aconteceu nas proporções desejadas, como um dia não aconteceu com Jânio, que fez um gesto teatral para voltar nos braços do povo e não deu certo.

Por outro lado, o Presidente Bolsonaro afirma que o país é ingovernável pelo fato de que, os Parlamentares Federais exigem coisas nada republicanas em troca de votar projetos que são do interesse do povo. O Capitão alega que não vai ceder aos caprichos e a fome insaciável dos Deputados e Senadores. No entanto, sua falta de jeito no trato com os parlamentares tem dificultado a governabilidade, em detrimento aos interesses da população.

Por esta razão, Bolsonaro atiça uma manifestação de rua hostil ao Congresso. É uma ação de alto risco. Botou lenha na fogueira e apontou para uma pré-disposição de uma ruptura institucional.

O número de pessoas que foram para as ruas não corresponde nem a meio por cento da população, mesmo assim o Presidente se declarou satisfeito e pode, a curto prazo até ter um efeito positivo para o Governo, a médio e longo prazo, é evidente uma piora na relação entre os Poderes.

Já é sabido, que os Parlamentares fizeram um raio X da manifestação e perceberam que não tinha pobre nas ruas. É claro que isso não a torna ilegítima, mas também deixa claro que este suposto apoio as reformas, é um apoio muito periférico, pois os pobres não foram para o asfalto, estavam em casa pensando em um jeito de sobreviver, meio a um cenário de 14 milhões de desempregados. Logo, é inútil imaginar que o Congresso irá dar ouvidos a uma manifestação que não representa os mais necessitados. Por outro lado, (e nesse ponto Bolsonaro obteve êxitos), esse manifesto visou, de veras evitar um impeachment antecipado, até porque não há motivos ou razões para querer cassar um presidente eleito democraticamente.

Por derradeiro, fica obvio duas coisas. A primeira é que o manifesto é de apoio ao Presidente e não as reformas. A segunda é que o Congresso poderia ter um gesto de grandeza, e fazer o que está previsto na constituição, ou seja, fazer um referendo e consultar diretamente o povo sobre os pontos mais sensíveis das reformas. Nem para Bolsonaro, nem para o Congresso. O povo resolveria através de um referendo e todos sairiam ganhando.

Elizeu Gonçalves Muchon – Professor e Jornalista

elizeumuchon@hotmail.com

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