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“O bem deixou de ser referência”, por Elizeu Gonçalves Muchon

Elizeu Gonçalves Muchon é professor e jornalista

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Elizeu Gonçalves Muchon - Foto: Divulgação

O bem deixou de ser referência. A frase é do ministro do Supremo, Luís Roberto Barroso, em resposta às críticas feitas pelo ministro Torquato Jardim (Justiça), logo após decretar prisão temporária a investigados na Lava Jato.

Mas o ministro não é o único que tem feito referências e estabelecido sabiamente um paralelo entre o bem e o mal. Filósofos, sociólogos, religiosos, articulistas, compositores e formadores de opinião de um modo geral tem abordado o assunto com muita propriedade.

Quando o bem deixa de ser referência, efetiva-se ali a real inversão de valores.

O que quis dizer o ministro com essa frase? Talvez esteja fazendo uma meia culpa, ao notar o inequívoco entendimento que a sociedade tem com relação ao comportamento dos senhores ministros. Tenho para mim que, talvez, mais inquietante que a inversão de valores seja a ausência de princípios.

Ouvi no sermão de um bispo em missa transmitida pela TV Aparecida que: “Atualmente a sociedade vive uma grande inversão de valores, ou seja, uma transformação de não sabermos o que é certo ou errado, positivo e negativo, moral ou imoral. As pessoas não mais reconhecem seus princípios, crenças e valores dentro de si”.

Já ouvi pais dizerem a professores: “trouxe esse menino para você educar, eu não dou conta”.

Já ouvi políticos dizerem: “ou você arruma dinheiro a qualquer custo, ou não se mantem no poder”.

Já ouvi eleitor dizer: “ou me pague, ou não voto”.

Já ouvi marmanjo dizer: “não dou lugar para idoso sentar”.

Já ouvi muita gente dizendo: “o crime compensa”.

Já ouvi religioso dizer: “quanto maior a oferta, mais rapidamente seu pecado será perdoado”.

Já ouvi autoridade de alta patente esbravejar, mostrar a carteira e dizer: “Você sabe com quem está falando?”

Já ouvi Raul Seixas dizer: “prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Já ouvi dizer tanta coisa que acabo convencido de que o mundo realmente está de cabeça para baixo. Deu-se início a uma contagem regressiva rumo à explosão de uma bomba letal, que me leva a refletir a música de Márcia Morelli:

“Invertemos os valores

O escuro esconde as dores,

Se o errado está certo,

Que futuro haverá?

....Quase me esqueço. Eu vi na série La Casa de Papel, muita gente torcendo para “assaltantes bonzinhos” contra policiais malignos. Vê se pode! Acho que o ministro está certo – O bem realmente deixou de ser referência.

ELIZEU GONÇALVES MUCHON - PROFESSOR E JORNALISTA

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