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"O jornalismo de perfil independente", por Elizeu Gonçalves Muchon

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Elizeu Gonçalves Muchon - Foto: Divulgação

Praticar jornalismo de perfil independente depende muito das características do jornalista e da própria empresa para dar liberdade ao profissional.

A notícia da morte abrupta do jornalista Ricardo Boechat na semana passada (dia 11/02), abalou o meio jornalístico e entristeceu milhares de pessoas que gostavam do jeito muito peculiar de Boechat praticar sua profissão na TV, no rádio e na mídia escrita.

O termômetro do jornalista buscava despertar a ira do ouvinte, do leitor e telespectador de maneira dura, mas sem perder o bom humor e a ética, compreendendo a natureza dessa função importante de formador de opinião, porém, respeitando os limites da razoabilidade.

O grupo Bandeirantes proporcionou a ele a oportunidade de colocar seu talento a serviço da informação independente. No rádio, seu programa disputava audiência com o Jornal da Manhã da Rádio Jovem Pan, composto, igualmente por Jornalistas de opiniões fortes, contundentes e polêmicas, mas Ricardo tinha algo a mais, com sua imensurável criatividade e capacidade de improvisação.

Não cabe a mim ressaltar as qualidades deste grande jornalista, pois isso já foi exaustivamente feito por pessoas com quem ele convivia e trabalhava, mas cabe provocar uma reflexão sobre a importância de profissionais da imprensa, que tenham a competência para exercer o direito de expressão garantido pela constituição, incorporando os sentimentos e as angústia da população em um país de tremenda desigualdade social, abalado por corrupção e inércia por parte dos três poderes.

Boechat em particular, teve enorme sensibilidade para abordar aquilo que o ouvinte queria ouvir. Foi extremamente inteligente ao usar uma linguagem simples e ao mesmo tempo contundente. Tal estratégia, fazia seus ouvintes se sentirem representados.

Entretanto, o âmago desta questão, o centro do assunto, não são os méritos deste grande jornalista, pois isso ninguém discute, mas a oportunidade de debater o papel da prática do jornalismo independente, sua importância para a democracia e a relação das empresas de comunicação com os governos, (Federal, Estadual e Municipal), visto que, o poder público é um “cliente” generoso das grandes empresas de comunicação. Fica “ruim” falar mal do cliente generoso. Os grupos de comunicação, via de regra, come no pires do Governo. Não critica, não enfrenta, não publica matérias mais delicadas, muito menos permite que seus jornalistas fazem qualquer comentário que possa desagradar o poder.

Por esta razão, a grande maioria dos jornalistas são sufocados pelos patrões, são impedidos de dizer o que pensam e obrigados a seguir à risca as normas da empresa. Quem perde é o país. Infelizmente, manda quem pode e obedece que tem juízo. Boechat conseguiu quebrar essa barreira.

Elizeu Gonçalves Muchon – Professor e Jornalista

[email protected]

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