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“O Poder Paralelo”, por Elizeu Gonçalves Muchon

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Elizeu Gonçalves Muchon - Foto: Divulgação

Seria cômico, se não fosse trágico. Semana passada, (dia 19 quarta feira), ao amanhecer do dia, foi colocado uma faixa em um Colégio em São Gonçalo, na região Metropolitana do Rio de Janeiro. A faixa dizia: “Proibido fumar maconha dentro ou fora do Colégio. Obs: Colégio é lugar de aprendizagem, educação e futuro digno para nossas crianças”. Soube-se depois que quem colocou a faixa foram os próprios traficantes. E tem mais, a imprensa publicou que quando a polícia chegou para retirar a faixa a pedido da direção da Escola, foi recebida a bala pelos traficantes.

Quão grande é a ausência do Poder Público, que os traficantes e milicianos ditam as regras em muitas comunidades. Mudam as Leis, oferecem “proteção”. Cobram caro, evidentemente, mas acabam assumindo as responsabilidades do Governo, ainda que de maneiro torpe.

No caso da faixa em testilha, é irônico imaginar que até os traficantes estão preocupados com o que está acontecendo dentro de nossas escolas. “É proibido fumar maconha dentro ou fora do Colégio” – escreveu o tráfico. Tipo mandando um recado: respeite o Colégio e deixem os professores trabalhar.

Esta história não é ficção, é um fato real vastamente publicado pela imprensa. Na moral da história é possível destacar alguns pontos: primeiro é que até os traficantes criminosos perceberam que a Escola é um lugar sagrado para preparar nossas crianças. É um lugar de trabalho duro para os professores e demais profissionais da educação e, portanto necessita ser preservado de comportamentos inadequados. Segundo é que o Estado brasileiro, não obstante arranca o coro das costas da população com cobranças exorbitantes de impostos, não consegue oferecer condições mínimas e elementares de segurança. Ao contrário, é o ópio da população. Terceiro é a demonstração inequívoca da força e do poder do tráfico e das milícias. Quarto é a inversão de valores que permeia nossa sociedade e que – se nada for feito – levará nossas gerações futuras sabe-se-lá-pra-onde.

A questão é: a segurança pública no Brasil está completamente falida. Policiais mal remunerados. Falta de programas de integração e inteligência entre as polícias. Falta de fiscalização nas fronteiras. Falta de presídios e programas de trabalho para os presos. Falta de justiça rápida e eficiente. Falta de programas esportivos e culturais para ocupar crianças e jovens, tirando-as dos olhos do tráfico. Falta de vontade política em resolver os problemas. Falta, falta, falta. Falta tanta coisa, inclusive programas de prevenção às drogas. Nesse caso, programas bem elaborado, pois o autor especialista neste tema Antônio Mourão Cavalcante alerta que os programas de prevenção às drogas devem focar a qualidade de vida e não as drogas. Focar as drogas pode surtir efeito contrário, excitar a curiosidade dos adolescentes, tão ligados a situações desafiadoras.

Por fim, a complexidade do problema da segurança pública exige muito mais do que se imagina, sobretudo em um país que amarga uma marca assustadora de cerca de 14 milhões de desempregados. O caso da faixa aqui abordado de forma rápida e periférica devia ser levado ao Supremo Tribunal Federal, que está discutindo a possibilidade de liberar geral o uso das drogas no Brasil. Aí seria, ou será o mesmo que armazenar pólvora ao lado de uma caldeira em chamas, o equivalente a extirpar a população. Por mais otimista que podemos ser o caos nos leva a um pessimismo obtuso.

Elizeu Gonçalves Muchon – Professor e Jornalista.

elizeumuchon@hotmail.

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