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"O preço da retórica antipolítica", por Elizeu Gonçalves Muchon

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Elizeu Gonçalves Muchon - Foto: Divulgação

O Presidente Bolsonaro se elegeu e adotou o critério antipolítica para escolher seus Ministros. No entanto, sua decisão começa a gerar consequências e ser desconstruída, pois seu governo está refém do congresso e parece que, abrir o caixa será a solução.

O Dep. Alceu Moreia, pres. da frente Parlamentar Agropecuária, já disse que Bolsonaro deve recorrer urgentemente a “manuais antigos”, leia-se: distribuir cargos públicos e verbas federais orçamentárias em troca de votos.

Votos para que? Para aprovar a Reforma da Previdência, por exemplo. O grau de dificuldade para essa aprovação está balizado em pelo menos três linhas de raciocínio. A primeira é que Bolsonaro em seus 28 anos de Dep. Federal votou contra as reformas propostas respectivamente pelos ex-Presidentes Fernando Henrique, Lula, Dilma e Temer. A segunda linha de raciocínio, refere-se sobre ele dizer que a reforma de Temer era desumana, no entanto, a reforma apresentada por ele, elaborada por seu Ministro ultraliberal Paulo Guedes, é, infinitamente mais desumana. Entre os inúmeros pontos cruéis, destaca-se o fato de praticamente não haver período de “transição”, não há respeito algum por aqueles que já contribuíram 30 ou mais anos e que irão ficar a ver navios, tendo que trabalhar, em alguns casos o triplo dos anos que ainda faltam. É como se na trigésima rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol, alguém mudasse o regulamento da competição destruindo o planejamento das equipes. Inaceitável. Sem contar o BPC, os rurais, os professores e outros disparates, sobre os quais aprofundaremos assim que a tramitação da matéria avançar. A terceira linha de raciocínio é que o Presidente fez uma campanha surfando na onda das redes sociais, caiu nas graças do eleitor e não apresentou nenhuma proposta de Governo, não fez compromisso de forma detalhada, não se comprometeu, é um filhote das redes sociais, porém, para governar, terá que bulir com a vida das pessoas. Para isso, necessitar-se-á do apoio do Congresso, sem contar que terá que conviver com os burburinhos estridentes vindo das redes sociais, cuja razão levou a ensaiar uma aproximação com as emissoras de rádios e TV, até então desdenhadas pelo Capitão.

É o preço da retórica antipolítica, pois disse que não ia depender dos partidos para a escolha dos Ministros, apelou para as bancadas temáticas, as quais são afinadas em questões ideológicas, mas não são afinadas em questões políticas. Está em um partido – PSL – que não é bem um partido político, mas um agrupamento de pessoas, contudo, precisa do voto do Congresso.

Prometeu aos homens do agronegócio a aprovar lei para perdoar dívidas acumuladas para os produtores – FUNRURAL – no entanto, desconversou por orientação do Paulo Guedes e por fim entregou aos Dep. uma bandeja, dentro da qual um abacaxi chamado Reforma da Previdência.

Em conversa por telefone com um Dep. Aqui do MS., ele me disse que a previdência é comparada com a velha história do bode na sala. Todo mundo conhece essa história do bode na sala. Sua conclusão é que, às vezes para resolver um problema, é preciso criar artificialmente outro maior. É como se toda desgraça do país fosse de responsabilidade dos aposentados.

Mas o Brasil é o Brasil. O Congresso brasileiro é um caso sui generis. Certa vez, um velho e experiente Dep. de Nome José Bonifácio de Andrada, ao conversar com um colega neófito, que acabara de chegar na Câmara, disse a ele: aqui você vai encontrar de tudo, gente honesta, ladrão, mentiroso, religioso, gente do bem e do mal, mas não vai encontrar “nenhum bobo”.

É nesse ambiente de incertezas que a reforma da previdência irá tramitar. Cargos serão distribuídos. Emendas serão liberadas. Podendo assim mudar a posição de muitos parlamentares e o povo ter que aceitar uma reforma desumana e mais uma vez pagar pelo pato que não comeu. Bolsonaro está pouco se lixando para o que vai acontecer com o país no futuro, o que ele quer mesmo é resolver o problema de imediato, tal sustentação leva a crer que ele pode aceitar alterações em alguns pontos da reforma, mas na regra de transição Paulo Guedes não deixará mexer. Resta saber como nossos parlamentares vão reagir.

Elizeu Gonçalves Muchon – Professor e Jornalista

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